01 maio 2008

O Encontro (Para Carlos e Helena)


Era uma tarde de sol.
Na estrada esburacada,
ao lado do pai, serena,
ia calada a jovem Helena.

Calada porque sonhava
com seu álbum de recortes.
Imaginava qual sorte
o futuro lhe traria.
Mal sabia a bela Helena
que o futuro não a traz
mas nos leva a sua porta.

Sonhava a bela Helena
com artistas endeusados,
intocáveis, maquiados,
que tirava de revistas
e colava em um caderno.

Era caderno de sonhos,
cada foto uma ilusão.
E ela, naquelas páginas,
sonhava ser Rita Hayworth,
ter Clark Gable a seus pés...
Só que tinha os pés no chão.

Estudava com afinco,
precisava se formar.
Esse o porquê da viagem
até cidade vizinha.
Com o velho pai andava
em busca de um local
para ficar por um tempo
e terminar o seu curso,
ter diploma de Normal.

Ficaram, então, sabendo,
de uma senhora estrangeira,
dona de uma pensão.
Oferecia aposento,
além de quê refeição.
Para lá, então, rumaram,
bela Helena e velho pai.

Ao chegarem, logo foram
atendidos de prontidão,
pela senhora estrangeira,
rude no trato, porém,
de afeto no coração,
acompanhada do filho,
jovem tímido e bonito,
na conversa se interpunha
para dar opinião.

Os olhos verdes de Helena
brilharam intensamente,
pois o moço, abertamente,
lhe mostrava intenção.

Loiro, alto, apessoado,
parecia enfeitiçado
pela moça em questão.
Era como se um recorte
daquele caderno de Helena
ganhasse vida e razão.
Era a foto que faltava
para sua coleção.

O velho pai, bem ladino,
sabia que o tal menino
tinha algo familiar.
E nesse mesmo momento
sentiu um cheiro de flor,
dessas de laranjeira,
que se usam no altar
em dia de casamento.

Feito o acordo com a senhora
voltaram logo a casa
pois a mãe os esperava.
Pouco falaram na estrada
mas o pai já pressentia
que o silêncio de Helena
era outro desta vez.

Não pensava em seus recortes
nem no curso, nem na sorte,
mas no jovem belo e forte
que a fazia suspirar.
O pai perguntou o nome
para ver a reação.
“Carlos, eu acho” – ela disse,
disfarçando a emoção.

Quando em casa a mãe pergunta
sobre como acertaram
um lugar, uma pensão,
diz o pai, profetizando
o que aconteceria então:

“Tem um moço lá na casa,
honesto, devo falar,
mas não me engano, estou certo,
o alemãozinho risonho
a filha vai nos roubar.”

Pai não se engana, decerto,
pois como disse o esperto,
nos idos de cinqüenta e cinco,
em dezembro, vinte e cinco,
aconteceu o profetizado:
o casório anunciado.
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