31 Maio 2008



Faz frio lá fora,
Na alma há tristeza,
Não tenho certeza,
Será o inverso?

Será o verso
Preso na garganta
Que me desencanta,
Será o vento?

Neste recolhimento
Sinto-me taciturna,
Nunca fui ave noturna,
Será o inverno?

Preciso tanto de sol!
De som, da luz do dia,
De cor e de melodia,
Será que invento?

O frio secou-me as lágrimas
O vento soprou-me as rimas
Da tristeza fiz meu tema
E chorei este poema.

28 Maio 2008



Não faço poesia concreta
Minha poesia é abstrata
Eu quero é voar

24 Maio 2008

Semente



Há uma hipótese
de apocalipse
e uma súplica
quase inaudível
dos deuses

os ausentes
os excluídos
os invisíveis
a conhecem

mas esses
não têm voz
no panorama
dessa múltipla
esclerose social
em que os selos
estão escancarados
e as bestas
dilaceram aos poucos

as estrelas se apagam
uma a uma

mas há
um pequeno brilho

procure-o
feche os olhos
ele está ali
junto ao seu
coração

frágil
intacto
utópico
insistente

é a semente
de uma nova
humanidade


20 Maio 2008



Sou como Pessoa.
Impotente sentir perante a Vida
e ela me vestindo o Corpo e a Alma.
Negando o admitir da Metafísica
e nela mergulhando por inteiro.

Não posso me desnudar de uma
nem evitar-me o afogamento da outra.
E isso me faz feliz.
Somos humanos, nós dois.
Talvez o que poderia ter sido
Seja.

13 Maio 2008


Cruzo os dias
em silêncio.

Palavras
ferem a alma.
Palavras
perdem-se
no desconhecido
sem volta.
Palavras
inevitáveis
tornam-se
fatais.

Ainda não é hora
Ainda há veneno
no copo.

Palavras
doces
não são engolidas.
As amargas
são degustadas
com prazer.

Se o que queres
são palavras,
toma-as:

Compaixão
Esperança
Fraternidade
Ética
Inocência
Segurança
Humanidade

Tira o bolor
e a poeira,
usa-as
como quiser.

Mas não me peça
também o sentido.

Esse ficou perdido
na vastidão dos dias.

10 Maio 2008



Ninguém ama como as mães.
Seja filho parido ou adotivo,
seja mãe de policial ou de bandido,
seja o filho um sucesso ou um fracasso,
ele será amado incondicionalmente.
Esse sentimento que Deus inventou
e guardou no coração das mães
é um exercício para a angelitude.

Feliz Dia das Mães a quem é, a quem será e a quem queria ser

08 Maio 2008




Abre tuas mãos e olha:
vazias e tristes.
Mas não te faças de infeliz
nem de desesperado.


Sorri, nem que seja um falso sorriso.
Canta, nem que seja uma canção amarga.
Esconde tua infelicidade
nem que seja com uma máscara inútil.


Lembra-te de que o tempo
é irmão do esquecimento.
Não culpes os outros por tua solidão.
Não deixes que todos sofram
as lágrimas da derrota
que tu semeaste.
São inocentes, o erro foi teu.


Afinal,
quem te mandou abrir as mãos?

01 Maio 2008

O Encontro (Para Carlos e Helena)


Era uma tarde de sol.
Na estrada esburacada,
ao lado do pai, serena,
ia calada a jovem Helena.

Calada porque sonhava
com seu álbum de recortes.
Imaginava qual sorte
o futuro lhe traria.
Mal sabia a bela Helena
que o futuro não a traz
mas nos leva a sua porta.

Sonhava a bela Helena
com artistas endeusados,
intocáveis, maquiados,
que tirava de revistas
e colava em um caderno.

Era caderno de sonhos,
cada foto uma ilusão.
E ela, naquelas páginas,
sonhava ser Rita Hayworth,
ter Clark Gable a seus pés...
Só que tinha os pés no chão.

Estudava com afinco,
precisava se formar.
Esse o porquê da viagem
até cidade vizinha.
Com o velho pai andava
em busca de um local
para ficar por um tempo
e terminar o seu curso,
ter diploma de Normal.

Ficaram, então, sabendo,
de uma senhora estrangeira,
dona de uma pensão.
Oferecia aposento,
além de quê refeição.
Para lá, então, rumaram,
bela Helena e velho pai.

Ao chegarem, logo foram
atendidos de prontidão,
pela senhora estrangeira,
rude no trato, porém,
de afeto no coração,
acompanhada do filho,
jovem tímido e bonito,
na conversa se interpunha
para dar opinião.

Os olhos verdes de Helena
brilharam intensamente,
pois o moço, abertamente,
lhe mostrava intenção.

Loiro, alto, apessoado,
parecia enfeitiçado
pela moça em questão.
Era como se um recorte
daquele caderno de Helena
ganhasse vida e razão.
Era a foto que faltava
para sua coleção.

O velho pai, bem ladino,
sabia que o tal menino
tinha algo familiar.
E nesse mesmo momento
sentiu um cheiro de flor,
dessas de laranjeira,
que se usam no altar
em dia de casamento.

Feito o acordo com a senhora
voltaram logo a casa
pois a mãe os esperava.
Pouco falaram na estrada
mas o pai já pressentia
que o silêncio de Helena
era outro desta vez.

Não pensava em seus recortes
nem no curso, nem na sorte,
mas no jovem belo e forte
que a fazia suspirar.
O pai perguntou o nome
para ver a reação.
“Carlos, eu acho” – ela disse,
disfarçando a emoção.

Quando em casa a mãe pergunta
sobre como acertaram
um lugar, uma pensão,
diz o pai, profetizando
o que aconteceria então:

“Tem um moço lá na casa,
honesto, devo falar,
mas não me engano, estou certo,
o alemãozinho risonho
a filha vai nos roubar.”

Pai não se engana, decerto,
pois como disse o esperto,
nos idos de cinqüenta e cinco,
em dezembro, vinte e cinco,
aconteceu o profetizado:
o casório anunciado.