30 novembro 2009

O Linho


Por nove vezes aguado,

Por nove dias no enxugo,

Por nove luas banhado,

Urdido e branqueado,

Fiado e tecido o linho

Ao homem é apresentado.


Na camisa do recém-nascido

Na roupa limpa de domingo

Guardada para ir à missa

Ao batizado e ao bingo

No vestido da boneca

Na cordinha do pião

Na capa do primeiro livro

Embrulhando velhas fotos

Guardadas com devoção

No enxoval da donzela

No terno branco do noivo

No lencinho da lapela

Ajeitado por mão delicada

Na batina do vigário

Na passadeira engomada

Cobrindo o altar da igreja

Fiado por mãos fidalgas

E também por mãos escravas

Em bordados provençais

No saiote da mucama

Na toalha de banquete

No avental dos serviçais

Nas telas dos grandes pintores

Nos lenços que enxugam lágrimas

Vertidas por perdidos amores

Nos monogramas dos príncipes

E nos lençóis dos amantes

No vestuário sagrado

Nas tendas dos itinerantes

Na túnica do homem santo

No manto do abnegado

Nas múmias embalsamadas

No sudário do crucificado

Na linhaça que alimenta

Na cosmética, na medicina,

Nas redes que embrulham a morte

De uma vida severina

Nas flores azuis que encantam

Nas bainhas, nos relevos

Nos nós, nos vãos e remates

Decorando nossas casas

Apoiando nossos embates

Trançada em fibras,

Cruzada em fios,

Lida nas entrelinhas,

Estampada, entrelaçada,

Em arabescos bordada,

Na vida que temos hoje

E na mais remota antiguidade

Nas linhas do linho está escrita

A história da humanidade


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