31 agosto 2009

Sentença



me diz que é agora

a cena está perfeita

a cama está desfeita

a música de fundo é triste

o dedo como sempre em riste

a luz incide transversal






pode proferir a sentença


que ela seja irrecorrível


que ela seja irrevogável


torne a alma vazia


a primavera sombria


e deixe na boca o gosto do sal




saia sem olhar para trás


eu dispenso as condolências


não se dê tanta importância


não ensaiarei um gesto


não cobrarei meu arresto


mas é meu o ato final





depois que a porta fechar


no descerrar da cortina


lamentarei minha sina


por me entregar à paixão





deixarei que a solidão


me consuma em todo o mal

arte de Anca Sandu

21 agosto 2009

O Futuro


vamos de mãos dadas

em direção ao futuro

juntos, nada nos deterá

derrubaremos qualquer muro


filhos da pátria, caminhemos

com fé, amor e arte

unidos por um mundo melhor

a palavra é nosso estandarte


a esperança nos comanda

a fraternidade nos guia

a persistência é nosso lema

nossa arma é a poesia




arte de Delacroix




13 agosto 2009

Meu Avô


Meu avó era um gigante.

Pra conversar com ele

eu tinha que olhar pra cima

e ele me sorria lá do alto,

com aquele chapéu enorme.

Se eu quisesse uma fruta no pé

ele esticava o braço e pegava

com uma só mão!


Meu avô era um super-homem.

Fez um balanço na varanda para os netos,

em que a gente podia balançar forte

que não caía,

e me levava nos ombros

quando íamos nadar no rio.


Meu avô era um rei.

Quando ia para a cidade,

na chimbiquinha sem portas,

eu ia na carroceria

com o vento levantando meus cabelos

e na cidade ele a todos acenava.


Do alto dos meus cinco anos

eu não sabia que meu avô era velho,

eu não sabia que ele iria embora logo.

Se eu soubesse,

teria lhe dado mais beijos

e pedido mais colo.


Quem tem um avô, tem um tesouro.



foto: eu e meu avô Clóvis (1961)



06 agosto 2009

ORIGEM




retorna o homem à origem

no seio da mata virgem

sombras, ruídos e aromas

despertam memórias ancestrais


percebe-se como espécime

no paraíso incólume

e em renascer sublime

metamorfose ou simbiose?

comunga com elementais


chora a devastação

da encosta e do grotão

convulsa febril pela terra

e sangra com os animais


revolta-lhe a bestialidade

chamada de humanidade

sofre o selvagem instinto

e lastima os seres mortais


quisera tornar-se floresta

quisera buscar qualquer fresta

na aura verde das rondas

e incorporar toda a senda

do atavismo universal





arte de Geneviève Sophie Routhier