30 setembro 2009

Inspiração


a idéia surge

em meio

a uma nebulosa

e a poesia vem

bordando nuvens

dançando folhas

esvoaçando véus

e então se deita

quieta

imóvel

nunca sedimentada

pois que não é pedra

nem areia

e sim éter

moldável

como a vida



arte de Freydoon Rassouli



26 setembro 2009

Vem, criança


vem, criança,

que a terra é tua

teu é o céu,

tuas as estrelas,

a água em que

foste gerada


seja bem-vinda,

desculpa a desordem

(estamos tentando

arrumar o planeta

pra te receber)


vem, indigo-blue,

cristal dos meus olhos,

vem que estou pronta

pra aprender contigo

as lições de futuro


vem e me ensina

a conversar com borboletas

a ouvir música de estrelas

a caminhar com anjos


vem, criança,

que a Terra é tua

e o Céu também.


(foto de Anne Geddes)


22 setembro 2009

Matisse




Sonhei

que o peixe voava

e a pomba

da parede despregada

a ele se juntava,

em aéreas volutas

no oceânico balé.


Das flores

extraí

a essência da forma

preenchida

de cor

na ilimitada amplitude.


Mergulhei

no vermelho,

embebi-me

de azul,

no branco

recriei-me.


Nem sombra,

nem luz:

Puro.



(Exposição Matisse Hoje/Aujourd’hui – Pinacoteca do Est. de São Paulo setembro/2009)

19 setembro 2009

sem fantasias



qual a parte de mim que fica?
qual a parte de mim que vai?

o mistério
de aqui chegarmos
nus
e de mãos vazias

e de partirmos
para o mistério
nus
e de mãos vazias

sem máscaras
sem fantasias

neste intervalo
- que é a vida –

nos vestimos
revestimos
travestimos

tantos disfarces
para tantas farsas

essas frágeis cascas
abandonadas
no fim da festa
restarão
qual sombras
de um mero
personagem

da inutilidade
de um mero ato repetido
surge a imensidão
das possibilidades

qual a parte de mim que fica?
qual a parte de mim que vai?


13 setembro 2009

Fuga



Não haverá verso nem rima
Para vedar a goteira
Instalada no coração.

Vou onde o oceano termina
Buscar de volta a essência,
A decência e a pulsação.

Sinto tamanho desgosto
Das coisas e das pessoas,
Desse teatro mal disposto
Que só destila fel, tão imundo,
Fecho os olhos e construo
Uma casa no fim do mundo,
Longe dessa confusão.

Quero alçar vôo e despertar
Fora do olho do furacão.

Cansei de ser ilha,
Quero ser mar.

09 setembro 2009

novas palavras





das palavras que lancei ao vento
sem refletir, no impulso do momento,
quantas feriram, humilharam,
quantas tentei trazer de volta e engolir,
quantas foram perdoadas e me resgataram
quantas fizeram chorar em vez de fazer sorrir...



das palavras que o vento me trouxe
desprezei as cruéis e guardei as doces
quantas vieram qual setas envenenadas,
quantas rebati ou fingi não ouvir,
quantas eram verdades por mim ignoradas,
quantas me fizeram chorar em vez de fazer sorrir...



sonho com um mundo de novas palavras
que o vento leve e que o vento traga,
que sejam tantas doces, amáveis e benditas,
que cheguem mansamente e façam o amor fluir,
que abracem e confortem almas aflitas,
que iluminem os olhos e façam sorrir...





arte de Helena Nelson Reed

06 setembro 2009

Admiráveis




Admiráveis são os que vão à frente

dão a cara a tapa,

carregam nossos fardos,

abrem vales entre as montanhas

e não temem o amanhã.



(Tiradentes, Che Guevara)



Admiráveis são os homens sem medo

que fazem de seu ideal um escudo,

tiram as pedras do caminho,

e tornam-se tão grandes em sua majestade

que levam consigo as multidões.



(Mandela, Bob Kennedy)



Esses heróis admiráveis

são temidos pelos maus,

incompreendidos pelos fracos,

e frequentemente são ceifados

pela mão da ignorância.



(Luther King, Gandhi)



Admiráveis homens

de alma magnânima,

que reverenciam a vida

e entregam-se

– corpo e alma –

à humanidade.



Seus nomes serão poemas

para sempre recitados,

na canção da Liberdade

eternamente entoados.



foto de Gregory Colbert