23 fevereiro 2015

stand by



já vou avisando: este será um poema sem rimas
sem métrica (talvez nem seja mesmo um poema)
as rimas são para a flor da pele
as métricas para adormecer a plateia
e estes são versos longos que mergulham meu caos interno

queria falar sobre meu jardim que após a chuva coloriu-se inteiro
mas meu coração sente falta de flor
não se engane com meus olhos de mar calmo
é no íntimo de mim que as tempestades se abrigam
e a solidez do silêncio se desfaz em agulhas

talvez eu seja um deus em férias
a miragem de um poeta sobre cuja mão pesam as palavras
um som que nem bem acabou de ecoar e já desapareceu
uma ferida que não se cura
ou somente um caroço exposto com um pouco de fruta grudada

interrompemos esse poema para dizer: isso não é um poema
é um castelo de cartas prestes a despencar

não passa de um rascunho do desespero
de quem trincou os olhos e vê a vida passar em fragmentos
essa vida que decididamente não serve para cartão postal
e no entanto sempre será viagem – como pó no vento
aqui escrevo para transformar em verbo a espera – de quem nem sabe o que espera
inquietude é meu mote

eu achava que o amor era um hosana nas alturas
mas descobri – tarde demais – que é uma queda livre sem paraquedas
não passa de uma droga psicodélica
a que tanto mais se adita quanto mais se vive a vida do outro
e se condena a um destino que não é o seu

eu me alongo em vertigens de pensamentos
por não saber o tempo que me é dado antes de medir a solidão
sim, deixemos esses assuntos nos livros fechados, com marcadores dentro
tudo bem guardado, o botão stand-by apertado, a luzinha acesa
empreste-me seu ombro, falemos somente de amenidades
do tempo, do futebol

estes são os dias perdidos da minha vida





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