27 agosto 2015

Dimensões


encontrei-te na catedral de minha alma
onde o tempo e o espaço deixaram de ser artifício para o real
eras o bardo e seu alaúde narrando minha vida em canções 
os sons materializando-se em minuciosas filigranas
dançando como insanas e dourando o ar 
o inverno era branco e o frio penetrante
eu olhava o fogo crepitante e via fantasmas flamejantes ao redor
acho que eram apenas galhos de árvores esfregando-se nas janelas
mas a atmosfera de magia me inundava e eu via mais do que havia para se ver
tua voz rouca em contraste ao fiddle que gemia ao fundo da sala trouxe-me recordações de um tempo suspenso em memórias inalcançáveis
sabias que eu precisava de tua poesia tanto quanto da rosa milagrosa que entregaste em minhas mãos e eu desfolhara
sabias que nunca mais dançaríamos e nunca mais os anjos esconderiam suas asas
e eu tremia por saber que aquele tempo não mais me pertencia
deixe-me ir eu pedia, liberte-me eu rogava, ainda que quisesse congelar minha imagem com a tua e perpetuar uma história fadada ao esquecimento 
brumas fecharam-se sobre nós como a nos confinar em gaiolas, corri pela noite afora sob a luz débil de uma lua minguante, uma louca a fugir de si mesmo
o vento gélido cortante como o silêncio, os limites do meu corpo confundindo-se com as trevas, desfazendo-se como as cascas secas de uma árvore
e do alto de um rochedo contemplei o ocidente com o desespero de saber que eram os últimos momentos de um reencontro que nunca mais aconteceria
as estrelas foram aos poucos se apagando, as trevas descendo sobre mim
eu dizia teu nome mas a voz se perdia como as promessas quebradas
ainda ouvi um último acorde quando a luz me invadiu os olhos
uma lágrima rolou, o peso do meu corpo se fez sentir repentinamente
senti-me como uma pedra no oceano
afundando
afundando
e então despertei...

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