10 maio 2016

Sobre viventes



é preciso mais
que a primeira luz da manhã
tocando o alto da colina
para secar a lágrima
dos que só veem o vazio no horizonte

é preciso mais
que olhos atentos e mãos amigas
para aqueles que o mar entrega

há vidas como fiapos
esparramados pelo vento
à própria sorte
há vidas como a minha e a sua
só que mais tênues
há vidas como fiapos
desenrolados do novelo
desfiados da trama

muitas vidas se perderam
mas ainda há vidas...

a vida é um cristal finíssimo
que tilinta sob mãos maestras
e se espatifa à força bruta

para que a esperança retorne
é preciso mais do que somente compadecer-se
é preciso estar lá, estender a mão, abraçar, acolher
é preciso ser um deles serem um de nós

bastaria um gesto generoso de portas abertas
porque temos de cair sempre de pé
ignorar as dores e construir um novo tempo

é preciso continuar, bater de porta em porta
se for preciso, gritar: HÁ VIDAS!

mas há arames, esmolas, desconfiança
a casa ficou, a cidade ficou, tudo foi deixado para trás
porque o medo de ficar foi maior do que o medo de partir
a angústia brilha como relâmpago no céu
o passado aperta no sapato 
e há arames, esmolas, desconfiança

somos indiferentes à fragilidade das borboletas
pesa em todos nós a indiferença das fronteiras
pesa em nós todas as mazelas
dos que sobrevivem
entre a bomba e o não



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