30 Janeiro 2008

SEREMOS UM






A que ponto chegamos!
Saímos às ruas e tememos
até mesmo a pobre criança
que só nos pede esperança.

Para onde vai o mundo?
Se a violência, a revolta,
a fome e a impunidade
estão rondando os lares
invadem olhos e almas
(há até quem bata palmas
e ache tudo normal).

Cegos!
Não vêem então que se hoje
tiram de alguém o pão
amanhã lhes será tirado?


É tanta gente que ensina
que a hora se aproxima
da terrível divisão.
Joio e trigo separados,
choros, gritos, lamentos,
não alterarão a sina
na hora do turbilhão...

Para escapar ao inferno
muito pior que o de Dante
a mala se prepara antes
a bagagem se acumula aos poucos.

Vê como está o mundo:
o que fizemos à Terra,
além de destruição e guerra,
além de matar nosso irmão?

É hora, amigo, de unirmos
nossas mãos, nossos destinos
e salvarmos a Criação.

Só juntos conseguiremos,
quanto mais braços tivermos
trabalhando no bem comum,
mais forças reuniremos,
mais cedo nos salvaremos,
e logo seremos UM.

UM povo, UMA vida, UM ideal
UMA alma, UM amor, tudo igual.

E uma nova Terra nascerá
onde prevalecerá o BEM
o ar puro, a criança sadia e bonita,
a mão amiga, a comida tanta!


Quem sabe até recebamos
do Irmão Maior a visita,
nesta nova Terra Santa...

23 Janeiro 2008

NUREYEV





Pássaro-pluma
Gesto preciso
Perfeição estética
Corpo-poema-corpo
Que fios te erguem no ar?

20 Janeiro 2008

INFÂNCIA




Distantes tempos a memória alcança
Trazendo cheiros, sons e paisagens
Que hoje se apresentam qual miragens
Da minha doce e colorida infância

Que saudades do tempo da inocência
Quando o dia passava em brincadeiras
No balanço, ou sob as goiabeiras
E o mundo não cobrava tanta urgência

As viagens de trem, os cafezais
O passa-anel nas noites de verão
O sítio do avô, a casa da tia

Sonhos, imagens que não tenho mais
Essas lembranças sempre me dirão
Que eu era feliz... e disso eu sabia!


19 Janeiro 2008

NOSSO AMOR




Um amor feito de calma
Um amor feito de espera
Foi aparecendo aos poucos
Como chega a primavera
Rompendo botões e brotos
Revitalizando a terra

Com a força da semente
Entregando-se ao chão
Foi aos poucos se instalando
Bem fundo no coração

Superou dificuldades
Maus tratos e tempestades
Às vezes quis desistir
Mas já havia raízes
Profundamente fincadas
Não dava mais pra fugir

E foi ficando
E foi crescendo

Suportando o frio do inverno
Trocando as folhas no outono
Para florir nas primaveras

Hoje é maduro, tem porte
Os seus frutos já gerou
O tronco está firme e forte
Muitos ventos suportou

Árvore de amor regada
Com carinhos adubada
Quando os revezes da vida
Vêm bater à nossa porta
Sua copa nos abriga

Sua sombra nos conforta
Dá suporte a nossas lidas
Une mais as nossas vidas
É pouso espiritual
Fica a certeza que importa
Árvore assim não se corta
Amor assim é imortal!


18 Janeiro 2008

AMIGO




Amigo
Estou farta
dos arames farpados
Enrolados
sobre os muros da tua casa
Eu queria te dar um abraço
Trouxe-te rosas
As únicas a quem se permitem farpas

Abre as portas
do teu coração
Deixa o medo sair
Deixa teu amigo entrar

Os muros isolam
O amor protege...


15 Janeiro 2008



Vai vida
Vem vida
Velejando
Varando vento
Virando velas
Varrendo valentes

Vou vagarosa
Valsando
Viajante voadora
Volátil veste
Vaporosa
Versejando

14 Janeiro 2008



À PROCURA DE RESPOSTAS

Como encontrar o caminho
Quando se está no deserto?
Como fugir do tempo
Quando ele está sempre tão perto?

Como fingir desprezo
Quando o amor é tão profundo?
Como sorrir aberto
Quando a dor toma conta do mundo?

Como respirar em paz
Quando está tudo tão denso?
Como falar alto
Quando nem mesmo penso?

Como alienar-se
Quando há um mundo lá fora?
Como entender
Quando a vida vai embora?

12 Janeiro 2008



POLARIDADE

Somos mais do que um,
Somos meio.
Meio bons, meio maus,
Meio alegres, meio tristes.
E nessa divisão
Tentamos nos compor.
E nessa absurda matemática
Que o Universo nos fala
E que o Homem não entende
Vamos nos multiplicando,
Divididos
Buscando ser inteiros.


Por isso tenho em mim
Um pouco da alma
De cada ser humano.
Por isso minha vida oscila
Entre o que sou
E o que também sou
Mas não estou.
Por isso tenho cara de russa
Mas a alma tropical.
E amo do mesmo modo
Os campos da Provença
E as montanhas de Aiuruoca.
Por isso olho o lindo mar de meu país
Mas penso que estou de costas
Para o mar de Neruda
Tão belo quanto este
(e que eu também queria ver
neste momento).

E sou um dos Doze Cavaleiros,
E morri na fogueira da Inquisição,
E algumas pedras da Grande Muralha
Estão lá por minhas mãos.
Já pisei na Lua, sofri por amor, escrevi poesia.
Já tomei veneno, lutei em revoluções, chorei de alegria.
Fui açoitado e vi meu filho morrer de fome.
Já odiei um ditador
E já fui um ditador.
E são esses fragmentos acumulados,
Esses seres uns aos outros costurados
Que me compõem.


11 Janeiro 2008



MULHERES II

E estamos sós...
Não da solidão que é triste e dói
Mas da solidão de quem olhou a vida
E entendeu

Na janela há uma rosa no copo
Faz dias que ela está ali
Sozinha
As pétalas abrindo
Pouco a pouco
As bordas começam a amarelar
Mas ainda exala um doce perfume

Mulheres e rosas
Seres solitários
Exalando seus perfumes.

09 Janeiro 2008



O MAR E O OLHAR

Pode a onda dizer o que sente o mar?
Pode o olhar retratar o que vai na alma?
A onda traz à praia o que não é mar
O olhar denuncia um momento
E não uma biografia
Mas o mar expõe nas ondas
Coisas que vêm das profundezas
Assim como o olhar deixa entrever
Pavores ocultos
Amores perdidos
Sonhos proibidos
Ai de quem não vigia os olhares
E deixa, como os mares,
Expostas suas intimidades...

08 Janeiro 2008

Noite


Frágil
Figura
A Lua

Sementes
De Vida
Estrelas

Densa
Imensa
Extensa
Noite

Figura
Densa
de Vida

Eu

Na Noite
Me Espelho

Nas Estrelas
Me Espalho

Na Lua
Me Vejo
Passar





Não se lembre de mim
Não me reconheça
Rasgue minhas fotos
Quebre aquele espelho
Que me aprisionou

E descubra-me hoje
Renascida das cinzas
Amadurecida
Mais completa do que ontem.
E apaixone-se novamente.

07 Janeiro 2008




Quântica

Estou no meio de mim
Daqui vejo o Universo
Solto-me e, como pluma, deixo-me levar...
De cada brisa, de cada vendaval,
Faço parte.
De cada lágrima, de cada olhar,
Faço parte.
Sou o que sou e a tudo pertenço.
Tudo sou.
Sinto-me completa, leve,
Preenchida
Sou um fio da Teia Universal.
Sou a gota de orvalho sobre a pétala da flor.
Sou a flor.
Sou o sorriso do bebê que reconhece a mãe.
Sou a mãe.
Sou a palha que o pássaro carrega.
Sou o pássaro.
Sou o ninho.
Sou.
Isto me basta.

06 Janeiro 2008



MULHERES

Somos feitas de aço
Mesmo que por dentro
Estejamos um bagaço

Morreremos um pouco hoje
Mas amanhã nasceremos
Renovadas, fortes e sorridentes
Para a nova luta

Não é fingir - é transcender!

E assim caminhamos
Inabaláveis
Para o futuro

Dançando conforme a música
Nunca perdendo o ritmo
Nem a leveza...

05 Janeiro 2008



COLAR DE PÉROLAS



Colar de família

Unindo mãe e filha

Trançando histórias

Traçando vidas

Contando sonhos

Catando estrelas



Femininos fios

Levando adiante

Segredos guardados

Almas lavadas

Por lágrimas

Por pérolas

Mulheres imortais...


POESIAS E PEDRAS

Ele veio caminhando
E tropeçou no poema
E achou que era pedra
O poeta viu
E zangou-se
Pensou em pegar a pedra
E atirar na cabeça dele
Mas não era pedra
Era poema
E o poema poderia feri-lo
Pelo despreparo
Pelo descaso
Pela cegueira
Então o poeta desejou que um dia
Ele tropeçasse numa pedra
De verdade
E se abaixasse
E pegasse a pedra
E pensasse:
"No meio do caminho tem sempre um poema"

04 Janeiro 2008



E TU ME CENSURAS

É no cotidiano que se situam
as coisas impossíveis.
Nos bons-dias e boas-noites
estão guardados os segredos do sol.

Não é nas bíblias
ou nos livros filosóficos
ou com os grandes catedráticos
que se aprende a vida,
ou que se descobre a diferença
entre o bem e o mal.

É no olhar dos simples de espírito
que se oculta a chave do mundo.
No preparar o jardim para as flores,
no estender a roupa no varal,
no sorriso do estranho que passa
tua alma encontrará a paz.

E tu me censuras por amar as gardênias.

02 Janeiro 2008

Alma






Inatingível
Censurável
Indelével
Alma
Tranca por dentro
Esconde a chave
Mas pelas frestas
Havemos de bisbilhotar
os Mistérios...

Ventos da Mudança






No espaço entre o pensamento
e a palavra
ainda reside a dúvida
presa por um fio
como aranha
que se recusa a abandonar a teia.


O ar da renovação nos inunda
poros e pulmões.
Se não é absorvido não nos absolve.
Sufoca, arrasta no turbilhão.


Quem pode com a vida?
Quem pode com a arte?