13 maio 2022

Equívocos



cravaram a bandeira no chão 
do mastro brotou algo
como uma planta
ou um bicho
uma enorme bolha
crescendo
crescendo 
os olhos fixos
a retina ardendo
a bolha crescendo
crescendo 
até que explodiu
brilhante como um quasar
em mil pequenos equívocos

10 fevereiro 2022

Candelabro





 


















somos todos velas 
de um mesmo candelabro
postado no centro desta mesa 
a que chamamos vida
luz e sombra 
igualmente apontamos
à direita e à esquerda 
e o senhor do tempo
em seu capricho
nos acossa e
traz o lenitivo
sopra as chamas
para avivá-las 
ou sopra um vento
para apagá-las
somos todos velas
de um mesmo candelabro
apenas velas
derretendo
derretendo
derretendo

14 outubro 2021

aguardo um sonho



no cais do tempo
aguardo um sonho
que me envolva leve
e me devolva o estro
eu quero a fuga
e o deleite breve
uma fenestra
no mundo enfadonho
que corrói e suga
onde tudo é impreciso
eu quero greve
e a chave mestra
de abrir o paraíso


01 outubro 2021

numa estrada de Minas





há certa beleza
que aflora da simplicidade 
não tem pompa nem riqueza 
e nem é comum na cidade 

mas numa estrada de Minas 
bordeando a Mantiqueira 
vi no sopé de uma colina 
à sombra de imensa mangueira 

uma casinha singela 
paredes de azuis descorados 
carecendo de vidro a janela 
mas no quintal espalhados 

havia um cão, cavalos, galinhas 
e em perfeita bordadura 
um jardim de florezinhas
...parecia uma pintura!

26 setembro 2021

borboletas ao sol



o silêncio do jardim foi desperto
por um farfalhar de asas
tão sutil que só meu pensamento ouviu
as borboletas passaram por mim
voando e pousando em flores
voando e pousando em flores
essa era a sua verdade
uma vida de voos e pousos breves
como breve é a vida das borboletas
não se sabe de onde vêm ou para onde vão
leves e diáfanas apenas passam ao sol

li que elas têm mil olhos
e enxergam mais cores do que nós
e, no entanto, essas miragens de anjos
nunca se viram ao espelho
desconhecem o rendilhado delicado
que borda e colore suas asas
cumprem seu tempo de inseto
livres e sem vaidades
leves e diáfanas apenas passam ao sol



22 agosto 2021

das dores profundas



o coração tem dores profundas
que nem todas as águas 
lavam ou levam
são nós não desfeitos
malfeitos que afligem
defeitos que atrasam
arrependimentos
falsos conceitos

nem sempre essas dores são nossas
mas pulsam nas veias
como se emprestássemos ao outro
não só a mão que ajuda
mas também o coração que abraça

08 agosto 2021

Você tem medo de quê?

 


mais que medo da morte
é a aflição do silêncio no fim
o frio na espinha o vídeo sem corte
um dedo de deus apontando pra mim

mais que medo do amor
é a dúvida entre o não e o sim
compromisso é um limite a transpor
que o destino decide se bom ou ruim

a vida quer da gente coragem
disse o Rosa escritor, simples assim
e ela pode ser maravilhosa
se deixarmos de ter medo enfim

08 julho 2021

perdi meu verso



perdi meu verso na rua
na fuga pra ganhar o dia
havia uma rima perfeita
que agraciava melodia
perdi como quem perde o rumo
em meio a cerrada neblina
tentei recompor o sentido
como a revolver o passado
nos escombros de uma ruína
perdi a palavra e o prumo
nem Drummond me salvaria
(riria de mim decerto)
sondei a veia poética
como quem em busca de água
cava areia no deserto
restaram desconsolo e mágoa
nem musa nem canto ou métrica
perdi meu verso na lida
perdi meu verso na vida

04 junho 2021

ilhas desertas





em nossas ilhas desertas
dormimos ao som das ondas
que estouram de encontro às pedras
recolhidos em claustro fatigante

barcos passam no horizonte
como sonhos impossíveis
- ou seriam quadros na parede?
ainda assim acenamos lenços brancos

mansos e letárgicos caminhamos pela areia
de mãos dadas com o silêncio e o fracasso
o mar é somente a espuma
que vem morrer aos nossos pés

o marulhar ao longe
brando e ritmado
é flutuante cantilena
que parece perguntar:
você resiste ou desiste?

13 abril 2021

Sinto muito, Tom


 

é quase abril
e ainda aguardo
ansiosa 
as águas de março
fechando o verão

veio o outono
amontoando folhas
todos os dias
mais e mais
estilhaços
é João é José
como cacos de vidro 
pelo chão

março se vai
e não há fim da canseira
nem passo
nem gesto
nem cuidado
nem intento
somente a certeza 
de ter de dividir o pão

é quase fundo do poço
é quase fim do caminho
eu quase sinto um desgosto
mas deixo o quase sozinho

abro a janela e abraço
o sol e a luz da manhã
meu coração ainda espera
um belo horizonte 
uma ponte
promessa de vida
renovação


(referências à canção Águas de Março. Tom Jobim compôs a canção em momento de profunda tristeza e a canção fala da esperança de renovação. É  uma das mais belas composições da MPB)

31 março 2021

Tempo Vazio



minha alma já pressentia 
o tempo vazio que viria
não era medo 
só um desconforto
sensação
de que o círculo 
estava prestes a fechar

não ouvi anjos tocando trombetas
ninguém celebrando saturno
nenhuma enigmática supernova
apontou nos céus

“all the devils are here”
e espalharam seus sicários
jagunços e tresloucados

a morte tem gosto
tem rosto e tem nome
o mundo se parte em dois
e as torres desmoronam

todos os dias nos dizem
reprimam-se e
mantenham o prumo

habito um vácuo de dor que não é minha
um exílio um silêncio um ponto de fuga
a extrema necessidade de acreditar
no despertar nos milagres e na paz


27 março 2021

 


dê-me uma razão para o espanto

para não evaporar o encanto


proponho corrermos como loucos       

tomar chuva beber orvalho beijar na rua

riso solto minha mão na sua

sem promessas que o tempo é pouco


em casa a gente se ama na rede

meu desejo por você é sede

traz água cerveja e vinho

faz um carinho e eu te encosto na parede

quem sabe a gente rola no tapete

faz algazarra acorda o vizinho


dê-me uma razão para o encanto

para não evaporar o espanto


22 março 2021

Asas de Ícaro

 


dia a dia o sol ensina

a domar ímpetos

e acelerar sonhos


eu bem sei que tenho

asas de Ícaro

e quando se está no alto

difícil é encerrar o voo


ouço o futuro me chamando

e prego os pés no chão

pois se voar agora

não temerei a queda


tomba-se o corpo

eu me esborracho

mas a alma tocará o sol

um dia morreremos todos

com ou sem as asas



25 novembro 2020

de como o homem inventou a música


penso que a música nasceu
quando o primeiro homem chorou
por medo
de dor 
ou por amor
e aquele som
que palavra não era
que grito não era
mas trazia à pele
algo que dentro mexia
ficou no ar por segundos
e na memória por dias
e a cada vez que chorava
mudava o tom
e a melodia
e assim o fazia
por instinto ou prazer
de sentir o poder
de expressar sentimento
e foi de invento em invento
batendo na pedra
ou batendo as mãos
soprando um osso
sacudindo grãos
descobriu instrumentos
desvendou emoções
nunca mais apartou-se
dessa arte imensa
que invade o silêncio
e abraça a alma
sem pedir licença


12 novembro 2020

a uma florzinha na grama

 


destacada cor no extenso verde da grama

um pequeno ponto rosa choque

destituído de fama

encontra espaço e busca o sol

poderia ser uma rosa

poderia ser um girassol

mas é somente uma nanica corajosa

que ousou burlar o sistema

e brilhou com delicadeza

sua cor como um farol

- eternizou-se em meu poema!



01 novembro 2020

Conversando com andorinhas


 
andorinha
um minuto do teu tempo
tão atarefado
por onde andas de dia
antes de te recolheres
aos vãos do meu telhado?

em meu ofício de poeta
tento traduzir teus gazeios
admiro os voos altos
e a algazarra matutina
que me inspira devaneios

nesses tempos tão hostis
busco palavras inversas
para descrever a vida
-a minha ou a tua? –
tanto faz
são apenas umas conversas

que é a vida
senão um nozinho
na linha da eternidade?
mas pensando bem
nossas existências delicadas
têm essa cumplicidade

não conheço Mikonos
nunca fui a Scarborough Fair
preciso cortar os cabelos e estou saudosa do mar
e tu andorinha, de que precisas?
tuas carências são singelas
basta um céu um abrigo e um par

nossa conversa está boa
mas preciso voltar à lida
cuidar aqui do meu ninho
que ser humano é maçante
complica demais a vida
(bom mesmo é ser passarinho)


21 junho 2020

Quarentena


enquanto o tempo está parado
e a vida se dobra para o lado de dentro
entre lavar sacolas de compras
pintar, costurar, cozinhar
ouvir as bachianas
um rock ou algum mantra
passam por mim dias e noites
de uma longa quarentena
que já vai a cem dias

lá fora há tamanho desperdício
de vidas que poderiam ser poupadas
há carência de abrigo
de consolo
de socorro
de paz
de futuro

aqui estamos em poucos
dos tantos que amamos
congregados em
tarefas, risadas, receios
conversas, filmes, refeições

palmilho cada pequeno canto
da casa e do quintal
- o limite imposto à segurança -
e busco as afáveis minúcias
que aquietam meu coração

nem tudo são flores
... mas ainda há flores


25 dezembro 2019

o poeta recolhe as palavras

arte de Leigh McCloskey

beija o amanhecer
uma tão frágil luz
como se a manhã
despertasse com frio
puxando as cobertas sobre si

há todo um futuro lá fora
entre as nuvens 
e o tímido sol

mas o poeta recusa a palavra
que possa retratar
a vertigem
de dias obscuros

queda-se em oração
a algum fantasma 
ou algum deus que desate 
as angústias e ruínas 
de uma obtusa humanidade

olhos fixos no céu aguarda
a argumentação do divino

a manhã já vai a meio
e só lhe acomete uma lágrima

somente isso
uma lágrima
a sustentar o mundo


10 dezembro 2019

Feiticeira


lá vai ela sorridente
praticando magia
à luz do dia

não é pássaro
mas flutua em sonho
devaneio e fantasia

tampouco cigana
mas a cada mão que toca
revela meiga profecia

seria talvez feiticeira
pelo doce olhar
que a todos contagia

chega cantando
ilumina o ambiente
é diva da alegria

seduz quando dança
provoca suspiros
inunda o ar de poesia

sempre de bem consigo
é fada é maga ou morgana
dotada de muita ousadia

lá vai ela sorridente
praticando magia
à luz do dia

04 dezembro 2019

Trova



somos vazios cheios de nadas
e desperdiçamos os dias
enchendo-nos de inutilidades
que só aguçam fantasias


28 novembro 2019

Ó pequena criança



ó pequena criança
tenho tantas histórias pra contar
queria que fossem apenas contos de fadas
sinto muito que algumas sejam tristes
o mundo em que vivemos é um só
mas ao mesmo tempo são tantos

ó pequena criança
se eu te levasse pela mão
para conhecer terras distantes
verias tantas coisas incríveis
cidades iluminadas
montanhas cobertas de neve
pássaros de todas as cores
altos castelos de sonhos
florestas santuários vulcões

eu fecharia teus olhos
para a vergonha do mundo
pediria perdão por tantos erros
que nós que viemos antes cometemos
em nome nem sei de quê
ainda estou tentando entender
para poder te explicar

ó pequena criança
admira a alegria das andorinhas
reparte teu dia com um gato ou cachorrinho
aspira o cheiro bom de maresia
abraça o vento e ouve a chuva no telhado
sente na pele o arrepio do inverno que chega
e guarda essas joias na gaveta da memória
com a etiqueta “poesia”

porque isso será útil no futuro
quando o mundo despertar teus temores
e as janelas se abrirem para os temporais
que a tua simplicidade de criança
não se perca nesses dias por vir
olha para os outros com doçura como agora
e pondere a solidão que arranha certas almas

ó pequena criança
procura a beleza oculta nas pequenas coisas
mergulha tuas asas de borboleta
na magia na música na delicadeza
que mora nos corações de todas as mães
estende as mãos a quem pede
e se puderes consertar alguma coisa
conserta um pouco esse mundo
com a ferramenta do amor
guardada na caixinha do teu lado esquerdo



25 novembro 2019

Rosa gloriosa




há tanto mistério nas rosas
cativam pela simplicidade
de se exporem tão viçosas
suscitando sentimentos
de admiração e sobriedade
e de súbito vem o vento
leva-lhe as pétalas airosas
ah que triste momento
para quem esbanja talento
extingue-se na fragilidade
a vida tão gloriosa


12 novembro 2019

Liberdade


é só a ti
liberdade
que volto meus olhos
padecidos 
dos humanos infortúnios

teu nome
tantas vezes clamado
em alta voz
ou em surdina

tu vens
mostra uma face
e logo alguém
te oculta os olhos
como na justiça

mas se a justiça
deve ser cega
tu não deves
liberdade
fechar os olhos 
a ninguém

tu és
o sonho
e o pesadelo
de todo humano ser

crava em nós teus ferros
quebra todas as promessas
com tuas mãos de ilusionista

é nosso destino
estares sempre
ao alcance de nossa
mão espalmada
que um tirano vem
e algema?


05 novembro 2019

Gaia


esse prato de branca porcelana
algum dia foi areia de rio
o macio lençol de sua cama
foi qualquer planta antes de ser fio

a nós tudo cede a mãe natureza
dispõe ao homem em sua carência
tudo por dádiva e gentileza
o que é preciso à sobrevivência

mas tão grande ambição e desperdício
no que deveria ser reverência
empurra a todos para um precipício

a mãe terra é boa mas sem clemência
se o abuso às suas leis torna-se vício
ceifa o homem por sua virulência

26 outubro 2019

infinito


meu olhar sobrevoa o nevoeiro
plácido canto de pássaro a celebrar o poente
comovido em translúcidas substâncias 
o pensamento andeja pela planície
nada deriva de mim
apreciador destacado da paisagem

poderia ser domingo 
tal a graça do momento em transe
as mãos espalmadas nos joelhos
receiam o movimento
que tumultuaria as aves 
em caravanas

quedo-me moldura
omito-me sombra
pressinto-me infinito 


20 outubro 2019

matizes


os que voam sós
dispensando do mundo
a ação da gravidade
que prende ao chão

os que amam o silêncio
entre uma nota e outra
da música que invade
e desperta a intuição

os que rejeitam dogmas
espíritos bem-aventurados
que se entregam à liberdade
pensando com coesão

são esses que nos ensinam
que toda rota é acertada
e a verdade tem matizes
conforme a percepção



 (foto de Christian Spencer)



18 outubro 2019

e se as estrelas partissem?


e se as estrelas
partissem do céu
para outro universo?
onde os amantes
buscariam inspiração
para escrever cartas de amor?
todas as noites
a lua choraria
sua solidão 
e os poetas
ah pobres poetas 
sem estrelas
a iluminar os poemas
com o que iriam comparar
os olhos da amada
os amigos que se foram
as lágrimas da saudade?
e os navios perderiam seu rumo
os sonhadores perderiam seus sonhos
os pintores não saberiam mais
como pintar o céu
que tristeza...
e se costurássemos uma a uma
as estrelas no céu
para que não fugissem?





16 outubro 2019

05 outubro 2019

ad aeternum


eu falo é dessas pequenas solidões
que sombreiam as ruas como árvores
dessas esperas intermináveis
por dias melhores
desses caminhares entorpecidos
rumo a utopias adormecidas
eu falo é da agonia do poema
que quer acordar 
os corações embrutecidos

03 outubro 2019

Bagagem


sopra um vento novo em minha vida
a cada ano que renasce
empino as velas e sigo renovada
embora eu saiba que
é o mesmo mar do tempo
que me leva
já não sou a mesma que veleja
a cada virada de vento
vou mais leve

minha história é uma só, mas é longa
a gente é sempre um pouco de tudo e mais um pouco....
a luz do dia ilumina o céu
como a alegria ilumina o olhar
são sinais que 
muita gente não vê
minha irmã escreveu 
palavras afirmativas
no pote de água
muitos meditaram 
durante o eclipse
há quem espere extraterrestres
para repartir suas agonias
somamos aflições
em vez de dividirmos colheitas
deixemos a vida ser como ela é
a perfeição em seu silêncio
devorando a lucidez
de quem a tente desvendar





21 setembro 2019

Amores e vinhos


quando você começa um amor
ninguém diz que você vai
ter de escavar o chão profundo
até as pedras ferirem a mão
ou que os voos ao céu
serão compensados
com descidas ao inferno

quando você começa um amor
custa a conhecer a pessoa
apaixonado e cego 
pula de cabeça no mistério
que toda pessoa guarda em si
e as mazelas vão surgindo aos poucos

você ainda tem a chance de pular fora
mas resolve ficar mais um pouco
e mais um pouco

e se o que a pessoa tem de virtudes
compensa os desastres que carrega
você fica mais um pouco
e mais um pouco

até chegar o tempo em que
já conheceu o céu e o inferno do seu amor
já escavaram tanto chão juntos
e até riram juntos de tantos desastres
que você aprende que o amor
é feito de luz e sombras
de estrada e ventania
e agora que o vinho está maduro
é que é hora de degustar


16 setembro 2019

Nanoconto



Marcava o tempo na prisão com risquinhos na parede da cela. 
Quando saiu, passou a marcar na parede da marquise sob a qual dormia. 
Foi preso por pichação.


08 setembro 2019

Longevidade


não pense que é tarde
para seguir sonhando
a vida é aqui e lá na frente

nem imagine que é inoportuno
brincar e correr pela praia
como criança contente

talvez seja a hora
de dizer àquela pessoa
todo o amor que você sente

ainda é tempo de aprender
a plantar, pintar, dançar
qualquer coisa diferente

você não está atrasado
para fazer o que lhe dá prazer
aceite o desafio e tente

não se anule 
não se reprima
porque o mundo é teu
de repente