12 novembro 2019

Liberdade


é só a ti
liberdade
que volto meus olhos
padecidos 
dos humanos infortúnios

teu nome
tantas vezes clamado
em alta voz
ou em surdina

tu vens
mostra uma face
e logo alguém
te oculta os olhos
como na justiça

mas se a justiça
deve ser cega
tu não deves
liberdade
fechar os olhos 
a ninguém

tu és
o sonho
e o pesadelo
de todo humano ser

crava em nós teus ferros
quebra todas as promessas
com tuas mãos de ilusionista

é nosso destino
estares sempre
ao alcance de nossa
mão espalmada
que um tirano vem
e algema?


05 novembro 2019

Gaia


esse prato de branca porcelana
algum dia foi areia de rio
o macio lençol de sua cama
foi qualquer planta antes de ser fio

a nós tudo cede a mãe natureza
dispõe ao homem em sua carência
tudo por dádiva e gentileza
o que é preciso à sobrevivência

mas tão grande ambição e desperdício
no que deveria ser reverência
empurra a todos para um precipício

a mãe terra é boa mas sem clemência
se o abuso às suas leis torna-se vício
ceifa o homem por sua virulência

26 outubro 2019

infinito


meu olhar sobrevoa o nevoeiro
plácido canto de pássaro a celebrar o poente
comovido em translúcidas substâncias 
o pensamento andeja pela planície
nada deriva de mim
apreciador destacado da paisagem

poderia ser domingo 
tal a graça do momento em transe
as mãos espalmadas nos joelhos
receiam o movimento
que tumultuaria as aves 
em caravanas

quedo-me moldura
omito-me sombra
pressinto-me infinito 


20 outubro 2019

matizes


os que voam sós
dispensando do mundo
a ação da gravidade
que prende ao chão

os que amam o silêncio
entre uma nota e outra
da música que invade
e desperta a intuição

os que rejeitam dogmas
espíritos bem-aventurados
que se entregam à liberdade
pensando com coesão

são esses que nos ensinam
que toda rota é acertada
e a verdade tem matizes
conforme a percepção



 (foto de Christian Spencer)



18 outubro 2019

e se as estrelas partissem?


e se as estrelas
partissem do céu
para outro universo?
onde os amantes
buscariam inspiração
para escrever cartas de amor?
todas as noites
a lua choraria
sua solidão 
e os poetas
ah pobres poetas 
sem estrelas
a iluminar os poemas
com o que iriam comparar
os olhos da amada
os amigos que se foram
as lágrimas da saudade?
e os navios perderiam seu rumo
os sonhadores perderiam seus sonhos
os pintores não saberiam mais
como pintar o céu
que tristeza...
e se costurássemos uma a uma
as estrelas no céu
para que não fugissem?





16 outubro 2019

05 outubro 2019

ad aeternum


eu falo é dessas pequenas solidões
que sombreiam as ruas como árvores
dessas esperas intermináveis
por dias melhores
desses caminhares entorpecidos
rumo a utopias adormecidas
eu falo é da agonia do poema
que quer acordar 
os corações embrutecidos

03 outubro 2019

Bagagem


sopra um vento novo em minha vida
a cada ano que renasce
empino as velas e sigo renovada
embora eu saiba que
é o mesmo mar do tempo
que me leva
já não sou a mesma que veleja
a cada virada de vento
vou mais leve

minha história é uma só, mas é longa
a gente é sempre um pouco de tudo e mais um pouco....
a luz do dia ilumina o céu
como a alegria ilumina o olhar
são sinais que 
muita gente não vê
minha irmã escreveu 
palavras afirmativas
no pote de água
muitos meditaram 
durante o eclipse
há quem espere extraterrestres
para repartir suas agonias
somamos aflições
em vez de dividirmos colheitas
deixemos a vida ser como ela é
a perfeição em seu silêncio
devorando a lucidez
de quem a tente desvendar





21 setembro 2019

Amores e vinhos


quando você começa um amor
ninguém diz que você vai
ter de escavar o chão profundo
até as pedras ferirem a mão
ou que os voos ao céu
serão compensados
com descidas ao inferno

quando você começa um amor
custa a conhecer a pessoa
apaixonado e cego 
pula de cabeça no mistério
que toda pessoa guarda em si
e as mazelas vão surgindo aos poucos

você ainda tem a chance de pular fora
mas resolve ficar mais um pouco
e mais um pouco

e se o que a pessoa tem de virtudes
compensa os desastres que carrega
você fica mais um pouco
e mais um pouco

até chegar o tempo em que
já conheceu o céu e o inferno do seu amor
já escavaram tanto chão juntos
e até riram juntos de tantos desastres
que você aprende que o amor
é feito de luz e sombras
de estrada e ventania
e agora que o vinho está maduro
é que é hora de degustar


16 setembro 2019

Nanoconto



Marcava o tempo na prisão com risquinhos na parede da cela. 
Quando saiu, passou a marcar na parede da marquise sob a qual dormia. 
Foi preso por pichação.


08 setembro 2019

Longevidade


não pense que é tarde
para seguir sonhando
a vida é aqui e lá na frente

nem imagine que é inoportuno
brincar e correr pela praia
como criança contente

talvez seja a hora
de dizer àquela pessoa
todo o amor que você sente

ainda é tempo de aprender
a plantar, pintar, dançar
qualquer coisa diferente

você não está atrasado
para fazer o que lhe dá prazer
aceite o desafio e tente

não se anule 
não se reprima
porque o mundo é teu
de repente

01 agosto 2019

Bandeiras

(NYC street art)

panos de todas as cores
gentes de todas as dores
terras estados nações

gentes de todas as cores
panos de tantos ardores
guerras conquistas escravidões

crenças de tantos ardores
palavras de tantos pastores
tabus dogmas submissões

palavras de todas as cores
crenças de tantos temores
iras juízos segregações

queria tanto que as cores
se espalhassem como flores
em igualdade de condições
que as bandeiras se irmanassem
recusassem divisores
eliminassem rancores
e mansamente desfraldassem
coloridos corações

15 julho 2019

11 julho 2019

Um sinal


nas montanhas mais altas
descansa a sabedoria
das eras

nas árvores mais antigas
mora a paciência
do tempo

no templo do silêncio
as rosas incendiadas
esperam
um sinal

mal vês as faces
que se dissolvem
em torpes enganos

não ouves o estalar
das almas
que se fragmentam

em que espaço bolorento 
enterramos a capacidade
de ler além do visível

em que solidão
perdemos a memória
do mundo

o poema chama por mim
no escuro da palavra
no branco do papel
espera
um sinal


28 junho 2019

meio-fio


soltos por aí
há vampiros e vigaristas
inimigos aparentes
amigos no rateio

dividir pessoas
de um lado ou de outro
me dá arrepio
prefiro o equilíbrio
danço com a Rita (Lee)
ali no meio-fio

21 maio 2019

Reflexo


ali à beira do lago
no silêncio 
em que me pertenço
admiro a flor d’água
que reflete 
sem ondulações
a pessoa original
que me habita

os lagos 
são mais verdadeiros
que os espelhos 
e o silêncio
o mais leal amigo

12 maio 2019

O tempo nos perdeu


há um canto constante e cruciante
em sonhos e pesares que o vento traz 
são vozes de um amor passado
dobrado e engavetado
a gaveta tranquei
a chave perdi
nos nossos nós
não há trajetos
os objetos
não guardo mais

houve o amor 
a febre da procura
provoquei loucuras
desfrutei a intensidade
mas o tempo nos perdeu
sobraram promessas
meros clichês
horas roubadas
um gosto amargo
de possibilidade
e um beijo teu


01 maio 2019

poema de maio


maio acontece
discretamente
principia em dia vago
e arremessa o ano
à metade
o céu das tardes de outono
espelha-se puro no lago

o inverno ainda é suposição 
o verão é lembrança carente
maio desdobra-se, então 
suave e benevolente

27 abril 2019

Indago a vida



sei que vivo porque respiro
que outra medida há?
mas se for a vida que me vive
como ela saberá?

na meditação em solitude
reparo na vida de dentro
cismo que tudo que há fora
tem em mim o epicentro

a nuvem que passa no céu
só passa porque a vejo
e o amor que sinto em mim
corporifica-se em beijo

que vida é mais verdadeira
a que vivo ou a que sonho
se tudo o que me acontece
sou eu que teço e componho?

queria a chave inconteste
a tantas difíceis questões
mas a vida pouco se importa
com minhas inquietações

quem sabe ela me responda
no silêncio de uma estrela
tão imensa e transparente
que eu não consiga entendê-la 

caminho assim dissimulada
como quem nada indagou
enceno-me bailarina
apenas fecho os olhos... e vou

18 abril 2019

Montréal



a cidade 
lentamente 
espreguiça suas formas
entre os vapores
e a melancolia
de um violão que chora

aos poucos
desdobra-se o dia

a paisagem 
se transforma
as luzes se apagam
as últimas notas
tangem a aurora


(vídeo: Mazurka-Choro, de Heitor Villa-Lobos, interpretação de André Priedols - canal: https://www.youtube.com/channel/UCNDcb_qRMVAosJ6nmX00lPg)