06 Julho 2009



como notas numa partitura
que ao se unirem viram música
da mão divina a urdidura
assim é a humanidade
tentando compor o som da vida
na pauta do cotidiano
em que resvala a verdade:
breves, colcheias, semifusas,
em disposição tanto confusa,
notas nem sempre harmônicas,
acordes às vezes discordantes,
melodia instigante,
orquestra sinfônica
procurando sua tônica;
então vem uma criança
faz de tudo bela dança
e reaviva nossa crença:
quem espera sempre alcança,
o som da vida é a esperança.


02 Julho 2009

Artesanato


vem de mãos faceiras

de rendeiras

bordadeiras

ceramistas

costureiras

vem de gente habilidosa

de todos os lugares

pernambucanos

gaúchos

paraenses

potiguares

vem de todas as cores

em todas as formas

pintado

enfeitado

com fitas

com flores

riqueza que vem de cultura

de folclore

de alma

de raiz

o artesanato de nosso país



23 Junho 2009



não temo a solidão e nem a morte

isenta de laços, fiz do céu minha morada

planando ao vento ou batendo as asas

deixo-me levar, para o sul ou para o norte


e descobri, vivendo nas alturas,

que não há vazio, não há abismos,

há espaços a serem preenchidos

com sonhos, levezas e ternuras


entrego-me ao sol, à lua, à vida

totalmente livre de amarras e grilhões

sou ave eternamente sem pouso

mas de alma plenamente agradecida


17 Junho 2009

Concepção


ciência exata

quando um mais um

é igual a três


masculino e feminino

em perfeita conjunção

inspiram e expiram

no ritmo da criação


no fluxo cósmico

a Vida explode em êxtase



arte de Josephine Wall



10 Junho 2009


... palavras que seduzem são aquelas

ditas à meia-luz, à meia-voz,

mas de coração inteiro,

completo e repleto

na cumplicidade do sentimento


... palavras que traduzem a linguagem

do olhar e do sentir


... palavras que lambem a pele

e fazem flutuar


... palavras do amor total


que mesmo quando não ditas

são ouvidas pelo corpo e pela alma.


arte de Krista S. Raak


02 Junho 2009

Iniciação



Ancorar o barco em porto firme

Jogar a sorte em carta marcada

O inverso da arte que resta inerte

No enorme fardo que a morte encerra


Na terça parte que assim se furta

A abrir a arca que no norte aguarda

Purga a amarga oferta de uma porta

De estreito vão e cuja graça é incerta


Se o forte enfrenta o cabo das tormentas

E firma o barco no porto que ancora

Marca a sorte com a carta que joga

Na reforma audaz que sem alarde versa


Então no altar arde a ígnea verdade

Na arca aberta repousa o que era oculto

A soberba esfinge resta decifrada

E o Universo desfralda seu último véu...




28 Maio 2009


Quem pagará a conta

dessa inocência perdida

que vaga pelas esquinas

de cada grande cidade?


Há no olhar pela droga embaçado,

no sorriso amarelado e desnutrido,

no ventre adolescente engravidado,

o retrato da indiferença e do descaso.


Seres invisíveis, párias ignorados,

passamos por eles de olhos fechados.


E se aqui escrevo

é para que não me pesem tanto os braços cruzados.



foto de Carf's


23 Maio 2009



A barca que navega o tempo

carrega por onde passa

a dor, amores, tormentos,

deixando apenas a marca

de tudo que foi vivido.


No coração ferido

fica só a cicatriz,


e se o perdão tiver lugar,

o tempo trará na barca

nova chance de ser feliz.



arte de Marina Harris


17 Maio 2009


se você não cabe no quadrado,

aperte um pouco de cada lado,

corte o excedente que não se aplica,

engole em seco mas não implica,

finge que gosta, ajeita a imagem,

faz cara de paisagem...

aja com um pouco de extravagância,

decore as regras da elegância,

e todos vão achar você bacana,

vão convidá-lo toda semana,

será uma figura invejável,

provavelmente um colunável...

mas em casa, frente ao espelho,

retira a máscara, meu velho,

e olho no olho, busque a verdade

de sua própria identidade...



foto de Dydynsky


12 Maio 2009



Ah, moleque

trepa na árvore

corre na rua

assusta a irmãzinha

puxa o rabo do cão

ri da vizinha

atira pedra no gato

chuta pedra

fura o sapato

cola chiclete na cadeira

atormenta a rua inteira

sobe no telhado

chora por tudo

cai da rede

rabisca a parede

vive dando trombada

deixa a mãe descabelada

leva bronca na escola

imita a freira

fica de castigo

não pode jogar bola

mexe com fogo

queima o dedo

briga pelo brinquedo


chega a noite

cai na cama

dorme e sonha

...parece um anjinho...


Deus te abençoe, moleque!

05 Maio 2009


fui levada pela maré

e aportei nos teus sonhos


trouxe perfume

desejos

meus ganhos


e se me perdi na ilusão

foi porque o ritmo

que me comandava

vinha do teu coração


um dia percebi

que esse mar de desenganos

me levava mais e mais fundo


então me desprendi

tracei meus próprios planos

e acertei minha rota


da vida aprendi

o voo livre da gaivota


hoje meu contorno é o mundo



arte de Jim Warren


27 Abril 2009


quase nem me dei conta

de quando morri

a morte chegou lenta e silenciosa

minando as forças

nublando a vista

levando à exaustão


de tudo, o que percebi

foi a escuridão

e aquele suave aroma de rosa


e então veio a grande mão

me devolvendo à terra

seca, retorcida,

amedrontada e entorpecida

adormeci e sonhei


em meu sonho havia algo

que eu desconhecia

era parte de mim

mas ao mesmo tempo

era uma nova vida


então entendi

que a morte é o impulso

para o renascer


senti a luz me inundar

e a força em mim crescer


e o ciclo se refez

deixei de ser semente

perdi o medo, fui em frente,

e me abri num novo ser


21 Abril 2009


quando estou em pedaços

você vem de mansinho

me conforta em seus braços

caquinho por caquinho

faz de mim mosaico

me salva da morte

me recria mais forte

e parte por parte

viro obra de arte



arte de Diana Maus

19 Abril 2009



Senti como um afago no coração

Ouvi palavras que ninguém dizia

Entreguei-me ao fluxo dessa inspiração

Na voz do vento veio a poesia



14 Abril 2009


vim pra te falar da vida

desse pequeno instante

entre o pó e a eternidade

da semente cósmica pulsante

que transcende o infinito

e desabrocha


vim pra te falar da verdade

somos pólen divino

soprados pelo vento cósmico

e pela terra espalhados

para aprender sobre o amor


frágeis, voláteis, fugazes

somos cerejeiras em flor



foto de Kurt Preston


03 Abril 2009



Tenho guardado em mim

o sentimento profundo
de que somente a poesia
pode salvar o mundo.

arte de E.J.Poynter


14 Março 2009


quando sua alma toca minha alma,

quando suas mãos tocam minhas mãos,

quando seu corpo toca o meu corpo,


harmonia, melodia e ritmo

modulam perfeitos movimentos,


às vezes tocamos

um noturno

em que um chopin se reconheceria.


às vezes tocamos

uma sinfonia

de deixar qualquer beethoven com inveja.


e não há ensaio – é sempre um improviso...




arte de Gustav Klimt



28 Fevereiro 2009




circunavego

os dias

à espreita

das tempestades

que se avizinham


a cada entardecer

guardo um pouco de sol

no bolso


e procuro

reter

o som das gaivotas

na alma





arte de Max Laigneau


18 Fevereiro 2009



como pássaros em gaiolas

cantam para as árvores

sem perceber as barras da prisão

assim vivemos - felizes na ilusão

...nem notamos a porta aberta


não há espada do destino

não há deuses maldosos

rindo de nossas dores

somos nós os atores

dos nossos dramas diários


há o mistério que cega

como quem olha para o sol

e há a cegueira estática

de uma vida errática

de quem pensa que vê


crianças sabem as respostas

mas exigimos as nossas

cheias de mentiras e defeitos

os livros contam estórias de grandes feitos

mas a história dos grandes homens está nas ruas



arte de Fernand Khnoff



09 Fevereiro 2009



de que me vale

um homem que pisou na Lua

se ainda há seres humanos encarcerados

em prisões de tijolos e em prisões de vícios


de que me vale

um telescópio que fotografa

estrelas infinitamente distantes

se ainda vejo pessoas neste planeta

de olhos fechados às atrocidades,

eternamente voltadas

às próprias mediocridades


de que me vale

um carro que atinge alta velocidade,

satélites que indicam o caminho,

se há homens perdidos

na morosidade de uma vida

dedicada apenas a satisfazer os sentidos


de que me vale

saber o valor de moedas,

PIBs e barris de petróleo,

se a Terra está gritando por socorro

os lúcidos estão gritando por socorro

os pobres estão gritando por socorro


SOCORRO!


ninguém come dinheiro nem bebe gasolina!

a crise não é financeira, a crise é de valores morais!


vale mais

pessoa cuidando de pessoa

gente se preocupando com gente

ser humano amparando ser humano


pois já foi dito

nenhuma ovelha ficará desgarrada

nenhuma alma será condenada

nenhum passageiro restará fora da arca


30 Janeiro 2009


te espero

ao lado dos girassóis

já curvados pelo entardecer


vão-se os pássaros

de volta aos ninhos

e essa atmosfera

de melancolia

me invade


a ausência arde


até o relógio

zomba de mim

e não cumpre seu giro

com a destreza que deveria


a espera é uma agonia

é o tempo com raiva da gente


a lua é um sorriso

nessa hora em que o dia já se foi

e a noite ainda não chegou


estás tão presente

embora essa distância consumada


também há vida nas metades

mas é meia-vida


20 Janeiro 2009


Sim, nós podemos

Ser grandes sem precisar tornar os outros pequenos.

Sim, nós podemos

Ter a mesa farta sem que os outros passem fome.

Sim, nós podemos

Confiar em nós mesmos e incentivar a autoconfiança nos outros.

Sim, nós podemos

Acreditar que as mudanças são possíveis.

Sim, nós podemos

E devemos cuidar de nossos irmãos menos favorecidos.

Sim, nós podemos

Ir além, mais alto, fazer mais.

Sim, nós podemos

Tornar o mundo melhor para todos.


Yes, we can.

Sim, nós podemos.


15 Janeiro 2009



Quando a Terra estiver devastada e os animais morrendo, virá uma nova tribo, formada por variadas cores e credos; e por suas ações e proezas a Terra tornar-se-á novamente verde.

Eles serão conhecidos como “Guerreiros do Arco Íris”.

Eles enfrentarão montanhas de ignorância, ódio e preconceito.

Mas serão dedicados, determinados em seu propósito e fortes de coração.

Eles encontrarão corações e mentes que os seguirão nessa jornada de retorno da Mãe Terra à beleza e plenitude . (Profecia dos antigos índios americanos)


“Virá, que eu vi.” (Um Índio, música de Caetano Veloso)






Há um canto de pássaro que ainda não foi ouvido.

Escondido sob um manto escuro ele ainda repousa.

Ousa vez ou outra um trinado, o momento buscando

Quando abrirá as asas e livre alçará vôo.


Há uma luz que ainda não se fez toda em cor

Por entre as trevas que nos corações fizeram morada

Acuada pelo tempo, a tempestade e a guerra

Encerra em si o último pôr do sol.


Há uma semente prestes a romper-se em vida

Perdida na inutilidade do servir aparente

Dormente embrião na aurora de uma nova era

Espera: por mim, por você, por nós – espera.


05 Janeiro 2009

Tao e Tama




Um homem caminhou pelo mundo.

Viu as armas,

as cidades,

as guerras.


Viu além das armas,

além das cidades,

além das guerras.


Viu o Homem

e a história dos homens.

Viu além dos homens

e de sua história;

viu as almas dos homens.


E contou a história das almas dos homens

nos gestos,

nas tintas,

nos metais,

nas pedras,

nas palavras.

Revelou aos homens

Coisas de suas almas que eles nem conheciam.


Buscou além das almas do homens

e encontrou o amor de uma mulher

que também vira as armas,

as cidades e as guerras.


E caminharam juntos

até o país das florestas,

dos homens simples,

onde reina a paz.

E aí fizeram morada,

construíram seu templo,

abriram seus corações,

e deram as mãos aos homens.


Aquele homem se foi

mas seu legado continua.

Sua alma pura permanece

imantada em sua obra,

guardada pela companheira

que de forma generosa,

amorosa e sagrada

revela aos que chegam

também de coração aberto.


Bendito o que fez de sua vida

um caminho para que

outros homens aprendam

a trilhar o seu próprio caminho.

Bendita a que fez de sua vida

uma porta aberta

aos amigos e estrangeiros

e que faz do Amor sua morada.

No Sagrado, os opostos tornam-se Um.



Dedicado a Tao Sigulda e Tama Sigulda.

Tao Sigulda (1914-2006), artista plástico de renome internacional, nascido em Riga, Letônia, fixou residência no Brasil na década de 60. Passeou por diversos materiais e variadas vertentes artísticas, demonstrando maestria em todas elas. Em 1985 criou um Centro Cultural que leva o seu nome, em Jarinu/SP. Tama Sigulda, sua esposa, é quem administra hoje as obras e o Centro Cultural Tao Sigulda, revelando com amorosidade e simpatia a quem ali chega a alma de seu amado esposo.

(fotos de Goonie: Tao e uma de suas últimas obras. Tama no atelier de Tao)

28 Dezembro 2008


Nos dias em que tenho vontade de gritar,
eu silencio.
Silêncio é um protesto
mais forte do que qualquer grito.
E pesa.



Colagem de Erika Tysse

12 Dezembro 2008


Estar aqui e não ser mais do que sombra

Deixar de cumprir a vida

Em seu propósito mais sagrado

Fingir que em nada lhe afeta

O drama que ocorre ao lado

Ser ausente, descrente

Ignóbil, imoral

Estar no avesso de si mesmo

Sufocar o deus potencial

Copo meio vazio

Taça em desequilíbrio

Tatear a estrada

Nesse caminhar errante

De ser alma penada

Em ser pensante



arte de William Blake


09 Dezembro 2008

Desatinadamente

Dediquei-me

Desmedidamente

Diluí-me

Dominaste-me

Desrespeitaste-me

Duvidei

Desiludi-me

Desprezei-te

Dominei-me

Decidi

Dolorosamente

Deixei-te

Desesperei-me

Debulhei-me

Desvencilhei-me

Desencantei-me

Desintegrei-te

Desafoguei-me

Desabrochei

Despertei

Dona do destino


(arte de Leonardo da Vinci)


05 Dezembro 2008


Um corpo no chão

E o povo aglomera


Um grito na rua

Olhos arregalados

Multidão curiosa

De dor, de morte


Fatalidade

Ou um ato desesperado e último?

Insensatez ou inutilidade?

Fim de vida

Ou começo?


O povo reclama,

Julga, e lastima

“Tão nova, coitada!”

O trânsito pára

E a vida pára


Alguém vai chorar amanhã

Por quem desistiu da jornada


Um corpo estendido na morte

Cheirando a suicídio

Com gosto de fim


(onde razão?)

(onde coragem?)

(onde ideais?)

28 Novembro 2008


Mal conseguimos roçar a Verdade
e no entanto a toda hora ela nos toca






20 Novembro 2008

Meu Poeta Manuel



Meu poeta mimo
Meu poeta Manuel

Fala da santinha
do sabonete
e da patinha do gato
com o lirismo
tão desmedido
dos bêbados

Deixa um afago
dentro da gente
desses de fechar
os olhos da alma
e transbordar
de doce melancolia

Meu poeta tristinho
Meu poeta ternura
queria abraçá-lo
e dizer “beba alegria”

Meu poeta das estrelas
Meu poeta querido
vou pedir um favor

Quando você for
pra Pasárgada
me leva com você?




11 Novembro 2008

Samsara


Deixar o chão e alçar vôo
Alma dividida
Entre o ninho e a partida

Peregrino errante
Em luta constante
Quebrar o espelho

Rasgar os véus
Galgar os céus
Transpor limites

Aspirar a verdade
No sussurro do divino
No segredo do destino

Governar a própria sorte
Morrer além da morte
Abandonar a Roda

Até deixar de ser...
E então nascer
No Grande Coração

05 Novembro 2008


São estranhas as pessoas
Que não sabem amar.
Soberbas, distantes,
Cercam-se de uma fictícia segurança.

São estranhas as pessoas
Que amam.
Otimistas, riem à toa,
Acham que o mundo tem jeito.

São estranhas as pessoas.

24 Outubro 2008


Choraste, mãe, pelo teu filho?
Tuas lágrimas não se perderão
Verterão em seiva
Para alimentar as borboletas

Tudo tem seu revés
Algo de bom
Deve nascer do sofrimento
Momento de paz após a chuva
Ternura de afago
Sangue novo na veia
A vida trazida pelas marés
E depositada na areia
Um sonho vago
O vento no trigo
Abraço de amigo

Todo mal tem antídoto


21 Outubro 2008

Girassol

Vem, Astro-Rei,
e me inunda com teu calor.

De pétalas abertas,
em completa doação,
reverencio tua luz
e teu poder

e acompanho-te,
ser magnânimo,
de leste a oeste
como hipnotizado.

E então te vais.
E por me teres abandonado,
profunda tristeza
se me apodera

e me recolho,
olhos postos à terra,
na esperança de que
amanhã tu retornes.


20 Outubro 2008

Prêmio Dardos



Recebi com alegria, do amigo blogueiro Vicente, http://inatingivel.wordpress.com/, a indicação para o prêmio Dardos, ofertado aos blogs que transmitem valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. Esses selos foram criados para promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Rede. Ao recebermos e aceitarmos o prêmio, devemos seguir algumas regras:

1. Exibir a imagem do selo;
2. Linkar o blogue que lhe atribuiu o prêmio;
3. Entregar o Prêmio Dardos a quinze outros blogs.

Minha escolha de blogs para receber o prêmio:

19 Outubro 2008


Em dias assim
Quando as almas não se encontram
E caminhamos mudos e pesados
Quando nos recolhemos a nossa concha
Cada um imerso no próprio egoísmo
Feridos não pelo que foi dito ou feito
Mas pela imagem crua e dolorosa
Que o espelho nos revela

Nesses dias
Em que o amor de tão doído parece ter fim
Embora não seja assim que ele se acabe
Quando sabemos da dor do outro
Mas preferimos chafurdar
Nas próprias mágoas
A dar o primeiro passo
Para a reconciliação

Em dias assim
Testamos mais profundamente
Nosso propósito de mudar atitudes
E entendemos que o
Embate de personalidades
Só leva à dor
E temos de ir buscar fundo em nós
A autocompaixão e o autoperdão
Para restaurar a harmonia interna
E redescobrir no outro
A própria necessidade de amar e ser amado


12 Outubro 2008



Há no homem duas serpentes
Duas vertentes do amor divino
Ambas tão discordantes
Ambas tão necessárias

O bem e o mal andam juntos
Pelo mundo, de mãos dadas
Quem pode afirmar
Qual é o fim ou o começo?

Tudo está certo sob o Sol.






arte de Linda Gadbois

15 Setembro 2008

A Máquina do Universo



Na imensidão
Do infinitamente pequeno
Buscamos entender
O Divino propósito

No megaevento
De nanosegundos
A supermáquina
Do microconhecimento
Perde-se em multiversas perguntas
De controversas respostas
E desafia o Sagrado

Enquanto Ele se diverte
Tangendo suas supercordas
E regendo a sinfonia
Do Universo

Somos a música de Deus(?)


13 Setembro 2008

Picadeiro



Em casa é o rei
No trabalho – o escravo
Na mente – sonhos de grandeza

Na marmita de todo dia
Nem feijão existe mais

De quem é a culpa?
Sua, minha ou nossa?
Ou, quem sabe, do destino?

Precisamos evitar
Que esse acrobata das estruturas
Caia em meio ao espetáculo

O operário sonha

Sonha com a morte,
Sombra que o persegue
E que o devora

Lá de cima

Das frágeis colunas de cimento
O artista vislumbra a criação

O cemitério de arranha-céus
Que ele mesmo ajudou a construir
Apavora-o

O operário chora

Mas suas lágrimas
Não abalam
Os alicerces da construção
Que comeu sua mão
E bebeu seu suor

O operário sonha

Sonha que há comida em sua casa
Que seus filhos são sadios
E sua mulher não reclama
Da vida que leva

E o operário chora.
E sonha, e chora.


03 Setembro 2008



Pontos de luz
retratando
um passado distante


e não obstante
olhamos para o alto
e buscamos
no escuro
vislumbrar
o futuro