18 julho 2018

Memória de Ana


haverá um tempo de voltar para casa
na asa de um anjo acolhedor
um tempo em que a dor será miragem
passagem breve por espinhosa estrada
marcada na vivência com amigos
antigos afetos e amados parentes
presentes nos momentos mais queridos

haverá um tempo de voltar para casa
na paz idealizada a hora de celebrar
fechar os olhos para este mundo
e se há algum pesar na alma
espalma-a e busca a luz e a liberdade
a saudade é um retrato que guarda a história
de vitória e de amizade pela eternidade

02 julho 2018

Colcha de Retalhos

Depois que me aposentei, resolvi aprender a costurar e fazer patchwork, até porque o salário de aposentado não é de nenhum marajá. Desativei o quarto de visitas e instalei meu "atelier", pois um artesão para ser chique precisa de um. 

Olha daqui, mede dali, o melhor lugar para instalar a máquina de costura acabou sendo ao lado da janela, para aproveitar a luz do dia e poder dar uma espiada de vez em quando, já que o quarto fica na frente da casa e a janela dá vista para a rua.

Esse quadrado com vidros e persianas é meu contato com o que acontece fora e também o que me tira a concentração do trabalho que estou fazendo. Simplesmente impossível não parar e olhar se alguém passa na calçada pisando duro (será que está bravo, teve um dia difícil), se um carro desce em velocidade indevida (que louco, não sabe que tem pedestres na rua), ou então a rolinha que está fazendo ninho no pinheiro começa a arrulhar (deixa eu ver se já terminou o ninho, ou se a gata não subiu na árvore). 

E a vizinha passa com o cachorrinho (tão bonitinho, olha só como vai alegre), outro vizinho conversa alto com alguém (parece que não se encontram há tempos), passa o sorveteiro buzinando (esquece, você já está acima do peso), olha só quantas nuvens escuras, deve chover hoje (as plantinhas agradecem), enfim, levo muito mais tempo do que o necessário para terminar meus trabalhos, mas me sinto feliz por fazer parte da rua e do que acontece, ainda que minha presença seja invisível. Se a costura não avança, pelo menos a colcha de retalhos da vida do meu bairro se descortina janela afora.

Helenice Priedols

25 junho 2018

Perfume


talvez sejamos apenas barcos
perdidos na escuridão do oceano
quem sabe sonhos ou pássaros
na solidão do tempo
espectros, vaidades
sombras no espelho

talvez histórias sem era uma vez
pretextos de falsas teorias
quem sabe somente contorno
de nuvens flanando no céu
luzes, metades
estrelas incandescentes

talvez nossa fragilidade
seja a perfeição do plano
quem sabe a beleza e o segredo
seja passar brevemente
amar e viver levemente
e deixar um rastro de perfume



10 junho 2018

Wanderlust


sofro de pernas inquietas
e de alma viajante
quando me convida
essa brisa distante
meu coração vai veloz

audacioso argonauta
vivo em balanço constante
outras línguas outros povos
numa romaria errante
como vai o livre albatroz

e se me priva o erário
e a conjunção deste instante
sonho e arquiteto viagens
pois a imaginação é gigante
e o mundo é uma casca de noz


23 maio 2018

dinâmica

arte de Laurie Kaplowitz

nada digo – observo
vejo a sombra - profética
fecho os olhos – trágica
prendo a voz – conservo

peço a luz – sede
no deserto – arábica
quero a paz – autêntica
me confundo – rede

leio a alma – entre
voo livre – mágica
planto amor -  dinâmica
sinto a vida - ventre


09 maio 2018

Os sábios do Facebook


há confusão nos mandamentos
uma loucura nas estrelas
estranhos experimentos
matam até as abelhas

a luz chega pelo avesso
o poema engole a palavra
o mal tem qualquer endereço
a morte prepara a lavra

perdemos a lucidez
tudo não passa de truque
no juízo e na acidez
dos sábios do Facebook

05 maio 2018

preciso urgentemente


preciso urgentemente 
ir ao oceano para alimentar baleias
encontrar uma floresta intocada para guardar árvores
ir à Casa Branca dizer ao sr. Presidente 
que o botão vermelho não acende e apaga
ele só apaga
preciso urgentemente 
escalar uma montanha bem alta para ver o céu de perto
estudar a condição humana 
para descobrir onde a evolução perdeu o rumo
abraçar um refugiado e dizer estou aqui, irmão
preciso urgentemente respirar um ar mais puro
e sem a poluição do ódio e do ressentimento
preciso, é preciso que o amor se espalhe
como pólen no outono, como flor na primavera
preciso urgentemente inventar um cão humano
ou um humano cão 
porque as pessoas amam os cães mas não amam os homens
preciso urgentemente 
dizer que é urgente mais que urgente é pra ontem
porque amanhã já será tarde demais

02 maio 2018

No metrô


ela senta-se do lado direito 
ele senta-se do lado esquerdo
ela no celular
ele admirando a rapidez de digitação dela
esperando uma pausa da tarefa tão urgente
ela desabafando com a amiga
cansada da solidão
ele desiste e pega o livro
mergulha nos artigos de lei
está descompromissado
melhor então estudar
ela cansa do celular
olha em volta e o percebe
tão bonito envolvido na leitura
pena não levantar os olhos
ela daria um sorriso
ou um meio sorriso
para despistar
a voz anuncia a próxima estação
ela se levanta e passa por ele
quase esbarra em seus pés
ele intenta um pequeno gesto
mas desiste
ela sai
ele fica
ela se volta 
ele a fita
três segundos
ela vai só
ele fica só
e o trem parte
the end


23 abril 2018

Essa ou aquela

arte de Sanaa K

sou essa
sou aquela
a santa a puta a devota
a que vai à luta
a que agora vota
na disputa
nem sempre justa
na saia justa
sou a que não ganha
e a que sempre apanha
a que dorme tarde
e a que acorda cedo
sou a que tem medo

sou essa
sou aquela
mãe menina mulher
qualquer uma
uma qualquer
meu melhor
a que sai à rua
e está sempre nua
mas que não é tua

sou essa
sou aquela 
não me calo
e eu não falo
do teu falo
mas desse ralo
e se grito 
por qualquer dor
esse é meu rito

sou essa 
sou aquela 
a que chefia
e a que limpa a pia
a que frita bife
e a que leva chifre
não sou perfeita
nem miss eleita
não sou rainha
não sou galinha
sou mal paga 
mal falada
mal amada
fiel ou infiel
não sou troféu
nem serva 
nem delinquente
me faço independente
a que mede o passo
busca espaço
sou gente

sou essa
sou aquela
mulher
ou como queira
mas inteira


10 abril 2018

tem jeito?


tantas vezes orei
sem ouvir eco
busquei oráculo
sem ter revelação
procurei respostas
nas garrafas
que o mar trouxe
nos olhos dos lobos
não vi a lição

nas gotas de chuva
tento ler profecias
inutilmente rastreio
o futuro nas estrelas
nem os espelhos
satisfazem meu desejo
de meu chapéu 
nunca saíram coelhos

mesmo assim
em algum lugar de mim
há uma suspeita e uma agonia
de que se a gente não se emendar
mais dia menos dia
o dono deste planeta
entra com ação de despejo


07 abril 2018

Estações do Coração


quero um abraço de primavera
desses que te fazem ser chuva
e abrir sorriso como quem 
oferta uma flor sincera

quero um passeio de verão
a pé de barco ou de trem
desses com amigos que riem largo
com sol chuva ou trovão

quero um piquenique de outono
sob árvores centenárias
com chuva de folhas coloridas
fazendo cama pra um bom sono

quero um aconchego de inverno
lareira acesa vinho na taça
cobertor quentinho dormir juntinho
e que o amor seja eterno

22 março 2018

Para uma amiga perdida no tempo


será minha amiga 
que um dia
nos encontramos
em outra vida
nas terras altas 
ou em Avalon?

ouvimos juntas 
conselhos druidas
dançamos ao som 
de uma flauta celta
ou quem sabe
fomos duas guerreiras
de terras nórdicas
mulheres selvagens
livres e belas?

será que confidenciamos
junto à fogueira
enquanto nossos filhos 
por perto brincavam?

penso talvez
que tenhamos trocado
receitas de bolo
e de poções de amor
que espertas servimos
a nossos namorados

ou seria possível
que em rituais sagrados
tenhamos bebido
do mesmo copo
em honra à deusa
ou à Grande Mãe?

ah, minha amiga
tenho certeza 
que já a conheço
de outros tempos
de outras batalhas
talvez da Escócia
talvez da Galícia
ou da Escandinávia

talvez crianças
na ilha da Irlanda
cabelinhos vermelhos
procurando fadas
ou camponesas 
de um clã vizinho
criando ovelhas
para os tartans? 

essa memória
tão bem guardada 
que não acesso
mas que me acena
assídua e intensa
de tantas coisas
que já vivemos
em terras estranhas
em tempos áridos
de encanto e magia
cultos e tradições
me deixa inquieta
cai como sombra
ou assombração

mas com certeza
nós já nos vimos
em outra vida
nas terras altas
ou em Avalon

você se lembra?

...

(Dedicado à minha amiga Márcia Poesia de Sá)


12 março 2018

rumo

arte de Justyna Kopania

cala essa espada ardente
que ferir somente
não me convenceu

muda essa vã rotina
mostra na tua retina
o que te entristeceu

ouve o palpitar constante
do meu coração amante
que esquadrinha o teu

rasga o retrato ardiloso
recusa esse rio perigoso
onde tua fé se perdeu

diz tua vontade primeva
que a luz te ilumina a treva
e me conta se valeu

enlaça tua mão na minha
realinha alma e espinha
que a vida não se rompeu

mantenha a cabeça a prumo
cumpriremos nosso rumo
novo dia amanheceu

03 março 2018

pé-atrás



não se fie em juramentos
eles desfiam
não se apoie em promessas
elas escorregam
não deposite sua confiança
é bolso furado
se lhe derem a palavra
peça firma reconhecida
e se oferecerem um pacto
não construa uma arca
porque o ser humano
deixou de ser sério
franco e verdadeiro
há muito tempo
mas há exceções
e é nelas
que nos fiamos
nos apoiamos
e depositamos
nossa confiança


15 fevereiro 2018

tudo o que a lua vê


vivemos no intervalo
no flash da câmera
nem sombra 
nem luz
somente um espanto
a pausa na sinfonia
seres inconclusos
auscultando os deuses
réus do destino 
ocultando os danos
enquanto a lua passa
e ilumina
amiúde
a vida e a morte

11 fevereiro 2018

nós e o universo


amo essas distâncias entre nós
em que te vejo e me vês
inteiros
não há esconderijos nos espaços livres
não há lua ou sol que preencha com ilusão
tudo se dissolve nesse imenso caos
entre aromas luzes ensejos
todos os desejos naufragados
deliram sob nossos olhares
não há mares nem ilhas
que recolham sobejos
somos nós e o universo
em dispersas mensagens cifradas
pulsos elétricos que só nós deciframos 


06 fevereiro 2018


esticou o poema como um veludo sobre o papel
sabendo que embora macio ao toque
tinha tramas estreitas e brilhos ocultos

04 fevereiro 2018

cem palavras ou sem palavras


poderia ter dito mil palavras
mas entre a luz e a sombra
que palavra caberia melhor que o silêncio?

todas as palavras tornam-se memória
as de amor e as de glória
todas as palavras vão com o vento
as de amparo e as de tormento

todas as palavras viram cicatrizes
as de cura e as infelizes
todas as palavras queimam no ar
as de alegria e as de pesar

poderia ter dito uma única palavra
mas entre perdão e adeus
que palavra daria conforto ao coração?

e assim ficamos, entre o silêncio e a palavra
aguardando os profetas que nos tragam respostas
ou os viajantes que mostrem o mapa das estrelas
amantes, sonhadores, poetas


20 janeiro 2018

entrega teu coração


entrega teu coração
como quem brinca inocente
sem traumas, irreverente
entrega teu coração
a uma pessoa, uma causa
eternamente, sem pausa
desabotoe a armadura
livre-se da amargura
entrega um sorriso também
entrega tudo, sem medo
saiba que nunca é tão cedo
para se fazer o bem
solta o choro, solta o vício
o que prende é desperdício
te amarra e te faz refém
medita nisso com calma
entrega de corpo e alma
ao impulso estimulante
a uma questão relevante
mas entrega de verdade
porque a vida é um instante
se não fores vigilante
ela passa como trem
entrega teu coração
não demore na estação
embarque, siga adiante
proclama tua verdade
por todo campo e cidade
antes da tua partida
para que vás com leveza
e deixes como riqueza
teu bom exemplo de vida
teu imortal coração




16 janeiro 2018

Deixa a janela aberta


quando os girassóis florirem
virei buscar-te
deixa a porta destrancada
deixa a janela aberta
e um adeus flutuando no ar

iremos a cavalo pelos campos
até as terras altas
e antes que chegue o vento do inverno
acenderemos nossa fogueira
ninguém saberá de nós

se acreditares
que há um outro mundo
sonha com nosso caminho
ouve minha voz que te chama
na promessa de um tempo por vir

quando os girassóis florirem
virei buscar-te
deixa a porta destrancada
deixa a janela aberta
e um adeus flutuando no ar

03 janeiro 2018

Passarei como nuvem



não careço riqueza fama ou destaque
sou alma das brumas 
sou formiga e feiticeira

não preciso beleza status perfeição
navego outros mares
respiro outros ares

e apesar dos pesares
aqui estou presa ao chão

beijo o silêncio 
sou pó no universo
prana é luz e alimento

passarei como nuvem
que se desmancha um pouco em chuva
e segue cativa do vento

e apesar dos pesares
aqui estou presa ao chão

18 dezembro 2017

Para os amores impossíveis


ainda me pergunto
onde foi que a viagem mudou de rumo
quando foi que o quadro despencou da parede
e a decepção invadiu todos os aposentos

ainda te celebro
nos calendários marcados em vermelho
nas noites vastas de luar infindo
no som da orquestra que enreda a vida

o vazio que traça a linha
do coração da mente da cama
o vento que não sopra em nossa direção
o ressentimento  a saudade o desencontro
carrego tudo em arrastado pesadelo

saio à rua te procuro te sinto
conversamos ali na linha do horizonte
se não posso te ter agora
que a reencarnação aconteça
tenho amor para mais de uma vida


23 novembro 2017

Há vaga


foi embora
por não saber 
onde apoiar as mãos
leão 
perdera o gesto selvagem
de se abrir sem doma
falar sem trancas
amar sem receios

foi embora
porque perdera o foco
tudo era borrão sem nexo
o sexo 
fotografia de efeito
arranjo enjoado
saiu como sombra
deixou casaco fome cacos

no canto da boca ensaiou um sorriso








13 novembro 2017

no bosque



dentro das árvores corre um segredo
ali os pássaros guardam seu canto
não procures saber o que o bosque guarda
pede licença às fadas
percorre o sagrado com o coração na mão
e asas nos pés descalços
deixa que os galhos rocem seus braços como um abraço
solta os medos, diga um poema às abelhas
abraça um tronco e pede a paz
este é o lugar dos milagres, do indivisível
respira fundo, fecha os olhos
você está em casa

10 novembro 2017

Olhos de poeta


onde o mar termina
e o ceú começa
teus olhos imaginam um mundo
nada em teu rosto se move
serenamente inventas 
canções, palácios, promessas?

e se nômade caminhas
pela solidão noturna das pedras
teus olhos flutuam cegos
interiorizados em poemas

teus olhos plácidos
teus olhos límpidos
tão repletos de vida
devotos das rosas e das nuvens

eternos mirares
perdidos entre girassóis e cerejas
nutridos por raízes e luares
preservados nas folhas de um livro
onde meus olhos encontram os teus

28 outubro 2017

se um dia...


se um dia
em que talvez chova ou faça sol
não importa
se um dia sentires que é hora
chama-me

e sussurra esses teus segredos
que fazem teus olhos
desviarem dos meus
por medo de que eu os leia

24 outubro 2017

poeminha de jardineira


digitei no google
“como cuidar dos lírios”
e divisei ali um poema
dizem que eles causam delírios
mas não seria esse o meu tema

lembrei dos lírios no campo
da virgem Maria 
da flor-de-lis
(aquela que nos lembra Paris)
lembrei do lírio da paz
de Luiz Gonzaga, de Djavan
(de quem não nego, sou fã)

descobri que há lírios do brejo
e lírios do vento
lírios do dia
e lírios do vale

encontrei na mitologia
interessante elemento
Hércules amamentado
e o leite derramado
formando nossa via láctea
o respingo de algumas gotas
na terra florindo lírios

vi em imagens de santos
que padeceram martírios
prefiro a simbologia
de que é flor de pureza
honra, lealdade, amizade

decidi, pesquisando assim
que flor de tal majestade
terá sempre um espaço
de destaque em meu jardim



19 outubro 2017

Verde mata e violão




vamos vender tudo
viajar por aí
velejar por lá
vagar sem compromisso
na bagagem 
vai o amor
temos um ao outro
e um verso novo
verde mata e violão

vamos por vilas e varandas
velharias abandonamos
viveremos sem vestígios
na bagagem
vestimentas
temos alguns vinténs
e um verso novo
verde mata e violão

vamos virar o jogo
vaticinar bom futuro
viajantes sem destino
vamos pelas vicinais
na bagagem 
vai o amor
temos tudo
de violetas a vitrais

e de quebra um verso novo
verde mata e violão


14 outubro 2017

Passeio norturno



nas horas em que o silêncio
adormece o mundo
a noite me pega pela mão
e vou com ela velar os sonhos

na aragem fresca dos campos
sinto a paz dos animais na dormida
navego oceanos iluminados pela lua
flutuo no espaço entre mil estrelas

perpasso cidades, países, continentes
espreito becos onde a noite é triste
os desvalidos que a cidade recusa
vejo as mazelas da nossa humanidade
que a escuridão camufla mas o olhar denota

no comboio noturno vão amantes e artistas
os que se alimentam da insônia
pelo prazer de uma boa companhia
mas há também pobres homens
a quem a noite não dá repouso
porque lhes pesa na alma
algum malfeito ou ultraje

vejo ainda companheiros
no trabalho de vigília
zelando em seu mister
ouço choros, risos, sussurros
quebrando o silêncio da treva
pressinto sonhos e pesadelos
passo por noctâmbulos
por criaturas da noite
em seus rituais de caça

eis que um pequeno lume
ergue-se no horizonte
a aurora anuncia o sol
novo ciclo, renovação
a noite me diz bom-dia
recolhe seu manto estrelado
acorda o mundo suas cores
rumores e cantorias
e eu guardo a minha viagem
com muito cuidado no bolso
porque sei que a qualquer momento
toda essa inspiração
vai acabar no papel
em formato de poesia



12 outubro 2017

Meias encardidas



ah! essas meias encardidas
das crianças felizes!
depois de um dia de proezas
artes e brincadeiras
a empresa de uma mãe 
é limpar toda a sujeira

entre tanque e lata de lixo
a dúvida se dependura
lavar ou jogar fora?
que loucura pensa ela
esfregar um par de trapos
até chegar à brancura

mas as mães são persistentes
não se abatem facilmente
esfregam sabão, escovam
usam limão, água quente
as meias ficam meio limpas
e puídas, quase transparentes

passa o tempo, filhos crescem
e cuidam das próprias meias
mas no dia das crianças
o clima é de nostalgia
bagatelas esquecidas
voltam então à lembrança
o olhar mareia de saudade
daquelas meias encardidas




01 outubro 2017

Salvação



séculos pesam nos ombros
a aurora que deveria renovar a luz
se perde nos recessos da alma
ao som da Lacrimosa

que foi feito de ti?
preso aos tentáculos
dessa poesia abissal
que te devora como a um bicho

tua súplica 
tua salve-rainha
teu joelho esfolado
não te levarão ao céu

ah! se os anjos te ouvissem
talvez sussurrassem tua salvação
talvez te enviassem uma corda
que farias?

tua carne queima aqui
teu inferno é aqui
tua morte é aqui

o mergulho no breu
vim buscar-te
abraça teus monstros
respira
respira
respira

ressuscita





28 setembro 2017

Chronos


quem sabe a flor de nossos anos viva
enclausurada ou em uma redoma
no coração do tempo algoz sombrio
que guarda para si o doce aroma

quem sabe esse senhor azafamado
que cobra caro qualquer desperdício
seja invejoso dos pobres amantes
que roubam o tempo em seu benefício

eco disperso no grande oceano
do universo apenas pulsação
impõe ditame tão draconiano

não o procures na terra ou no céu
jamais o trates como anfitrião
ou ele te engole como troféu