08 dezembro 2016

O meio não tem fim



fluir como o rio
o rio não tem fim
até alcançar o mar
o mar não tem fim
plantar árvores
para dependurar as dores
as árvores não têm fim
as dores não têm fim
as raízes penetram nas veias
urdindo cortando 
delineando barcos
e os barcos vão 
pelos fins pelos meios
não há cais não há pousos
lembranças sem fim
os antepassados nos observam
de seus retiros
a vida não tem fim

01 dezembro 2016

Todos os homens são sós


todos os homens são sós
ainda que o espelho da pele
revele a ausência de luar
ainda que o silêncio dos copos vazios
preencha a escuridão de segredos
no equívoco dos sentidos
pensam dividir o barco a casa o corpo
tudo não passa de fenômeno
delírio de buscar a luz
no frêmito de um girassol
que ao final do dia
tomba desconcertado

todos os homens são sós
fantasmas amaldiçoados
que não seguem nem conduzem
apenas perambulam a vida
em busca de si mesmos



16 novembro 2016

Cautelosamente


segue cautelosamente a vida
mede cada passo e cada fuga
recorta as sombras e faz delas origamis
fecha a ansiedade em quarto escuro
sem pão e sem água
guarda só a memória dos retratos onde dorme o azul
molda com asas pensamentos e poemas
e esquece a lucidez em translúcidas loucuras
para que a torrente das aflições não tatue tuas máscaras
para que não te percas no labirinto dos mil touros famintos
para que tua casa receba o tempo com alegria



30 outubro 2016

Última página


foto de Isabel Mansfeld

chamavam-se festas
e se prestasse atenção 
podia ver cadáveres
escorrendo pelas frestas 
cumprindo o caminho da gravidade
comprimindo as pedras

chamavam-se dias belos 
e se prestasse atenção 
havia frio nos olhares
como se os rigores do inverno
tivessem perdido as datas
instalando-se nos homens

chamavam-se poetas e deuses
e se prestasse atenção
veria espectros a rondar na sombra
a verdade a ancorar nas almas
estranhamente à vontade
como quem retorna ao lar


28 outubro 2016

Por onde ando nos sonhos


por onde ando nos sonhos
entre grandes aventuras
e a solidão das coisas pequenas
tudo me pertence:
os segredos
os bordados na pele
as alturas de onde caio
as estradas que se repetem
as casas onde os fantasmas festejam

não sofro de insônias
mas de excessos oníricos
poderia escrever um livro sobre eles
talvez um dicionário
ou um guia de turismo

pena serem apenas sonhos
que na extremidade do dia
apagam-se
pena serem somente
essas viagens clandestinas
sempre só de ida
pena eu sempre esquecer
de levar a máquina fotográfica


10 outubro 2016

O que me assusta


o que me assusta é a inércia
o medo e a desconsideração
a dor que alimenta e endurece o casco
a multidão de olhos grudados na cena do crime
a hipocrisia a artimanha a privação
mazelas que crescem na alma
e vomitam como um vulcão
homens que se pensam deuses
discurso reles e infecundo
a carne fraca a solidão
o que me assusta e devora
é a lucidez da minha carente humanidade
e a ignorância da minha exata condição
busco o céu em seu azul profundo
e pergunto à imensidão
quanto há em mim da maldade do mundo?
- não ouço resposta mas peço perdão


18 setembro 2016

Setembro


tudo que resta é o sonho
neste imenso setembro de espera
tudo que é vida ainda pulsa
neste intenso compasso
aflitivo
no espaço
de pré-primavera
tudo que é armadilha flutua
no suspenso cansaço
incisivo
estilhaço
que o amor destempera

04 setembro 2016

Lástima



perdemos as palavras que amparavam nossas paisagens mais ricas
e adotamos o disfarce das fotografias amareladas de domingos
que lástima ter de esperar o futuro para saber como termina este filme


28 agosto 2016

Minas Gerais

foto de Helenice Priedols

andei pelas bandas de Minas
por montes, montanhas, colinas
imersa em verde total
sobre azul angelical
andei limpando as retinas
nas paisagens europeias
das aldeias mantiqueiras
purificando pensamentos
em banhos de cachoeira
andei me fartando de trutas
pão de queijo, doce de leite
quanta paz, quanto deleite
minha alma se refez
tudo lá é bom demais
se Deus quiser e ajudar
um dia eu mudo de vez
lá pras bandas das Gerais 


30 julho 2016

Ainda que sóis


aqui estamos nós
ainda que sós
com um passado no bolso
e estrelas no olhar
essa estrada é nossa
o destino acena de longe
e nossas almas assobiam 
a mesma canção

aqui vamos nós
sem band-aid no coração
sem reservas 
sem domínios
no avesso dos caminhos
que a vigília desatenciosa
mostrou como certos
o amor acende 
as palavras que reinarão
acima de todas as mentiras

aqui somos nós
nossas dores
nossa casa
nossa dança
de mãos dadas
ainda que sós
ainda que sóis



18 junho 2016

João e a montanha



no topo do mundo
tudo é vasto, sagrado, profundo
no topo do mundo
as asas saltam, arremedo de voo
no topo do mundo
somos tão pequenos e tão grandes
os horizontes se alargam
a luz é plena
o coração dilata
a veia queima
o vento serpenteia
a verve arde
os sons invadem
a paz é tema

31 maio 2016

Assim seja



que seja o mar a levar as dores
que seja a pétala a amparar a rosa
e o pretendido gesto de esperança
venha sem receio e sem moldura
no deserto das renúncias

da imensidão lisa e transparente como um vidro
venha o hálito bom do futuro
trazido no sol das manhãs
e plantado em jardins clandestinos

que seja colhido o lótus do amor
na sombra que morre quando a luz invade
e seja abismo o portal da ousadia
do querer bem e fazer o bem

que a poeira do tempo recolha a âncora da verdade
e arranhe intrepidamente a cegueira do silêncio
e que seja manso o despertar das palavras
a embalar as almas em sedas multicores

depois que a pele perdeu o dom dos arrepios
nada mais surpreende
a não ser a beleza: sempre

que as mãos nos guiem tateando nuvens e sonhos
hipnoticamente levados pelos poemas das faces
que sejamos todos infantes na candura
a soprar aleluias aos cálidos ventos da arte

que seja perpétuo o homem a ressurgir de seus cansaços

10 maio 2016

Sobre viventes



é preciso mais
que a primeira luz da manhã
tocando o alto da colina
para secar a lágrima
dos que só veem o vazio no horizonte

é preciso mais
que olhos atentos e mãos amigas
para aqueles que o mar entrega

há vidas como fiapos
esparramados pelo vento
à própria sorte
há vidas como a minha e a sua
só que mais tênues
há vidas como fiapos
desenrolados do novelo
desfiados da trama

muitas vidas se perderam
mas ainda há vidas...

a vida é um cristal finíssimo
que tilinta sob mãos maestras
e se espatifa à força bruta

para que a esperança retorne
é preciso mais do que somente compadecer-se
é preciso estar lá, estender a mão, abraçar, acolher
é preciso ser um deles serem um de nós

bastaria um gesto generoso de portas abertas
porque temos de cair sempre de pé
ignorar as dores e construir um novo tempo

é preciso continuar, bater de porta em porta
se for preciso, gritar: HÁ VIDAS!

mas há arames, esmolas, desconfiança
a casa ficou, a cidade ficou, tudo foi deixado para trás
porque o medo de ficar foi maior do que o medo de partir
a angústia brilha como relâmpago no céu
o passado aperta no sapato 
e há arames, esmolas, desconfiança

somos indiferentes à fragilidade das borboletas
pesa em todos nós a indiferença das fronteiras
pesa em nós todas as mazelas
dos que sobrevivem
entre a bomba e o não



06 maio 2016

Das guerras



duas mãos cerram os punhos em guerra
duas mãos empunham armas
duas mães se desesperam
duas mães velam seus mortos
duas mãos assinam paz fictícia
dois lados carregam para sempre seus pesares

… o mundo gira a vida segue

as crianças da guerra nascem crescem
as crianças da guerra vítimas do estupro e da dor
nascem crescem e conhecem a história da guerra
um dia cerram os punhos
em guerra
matam estupram tiranizam
as mãos as mães nada podem contra a bestialidade
mãos e mães não têm sentido na guerra
nada tem sentido na guerra

uma termina
começa outra

... e assim caminha a desumanidade


29 março 2016

Alma oceânica



eu nunca habitei o mar
mas tenho a alma oceânica
ávida de profundezas
o rumo das incertezas
me leva me tange e me traz
nas ilhas que me povoam
deixo pequenos pertences
brinquedos abandonados
corações despedaçados
fragmentos de velhas canções
se as águas não me absorvem
retorno à terra sombria
recuso o espírito atlante
e busco cambaleante
fincar os pés neste lar
aqui tenho a calmaria
deságuo-me reverente
apesar da flama ardente
lembrando a todo momento
que este não é meu lugar


28 março 2016

Vento de outono


o vento de outono sopra folhas desmaiadas
e leva junto meu olhar 
perdido nesses dias de cores quentes
estalos no chão
e aromas de mirra e maçã

o vento de outono traz vontade de aconchego
é o descanso da terra
do esmero dos dias
das deusas tecelãs entrelaçando pensamentos
tempo de colheita e gratidão 

20 março 2016

Escolhas



o sorriso que se cola ao rosto
falso bigode de fantasia
ou o sorriso a quebrar o gelo
demonstração de simpatia

o braço erguido em fúria
contra qualquer minoria
ou o braço que ampara o torso
do baleado em agonia

a língua que espeta o outro
que fere que calunia
ou a língua que ensina o verbo
a oração e a poesia

o ventre que se prepara
para gerar com alegria
ou o ventre que expulsa um filho
tirado à revelia

a mão que mata com arma
caneta ou malfeitoria
ou a mão que oferece apoio
cura, abençoa, acalenta e cria

o coração aberto em flores
otimismo que contagia
ou o coração amargurado
triste, pesado em demasia

tudo faz parte da escolha
ao que damos primazia
somos nossos próprios donos
direcionando nossa energia

a nave Terra é aprendizado
de amor e sabedoria
então por que não buscarmos
a paz e a harmonia?

17 março 2016

4o. Encontro NOP

Poemas escritos em oficinas realizadas no 4o. Encontro do Grupo Nova Ordem da Poesia, em São Paulo (13 de março de 2016)



(3 palavras: amarrar, soltar, infinito)

Escravidão

Sonhei que éramos pássaros
de bicos e pés amarrados
em vão tentando nos soltar

nessa prisão sufocante
onde voo e canto nos foram negados
nada nos restava esperar

a vida é um dom bendito
e se a liberdade falta
acordemos na morte rumo ao infinito

................

E se... o céu escurecer

nada é definitivo 
quando a vontade lidera
as penas que o destino força
serão para mim material de asas
as pedras no caminho
fortalecerão meus pés
no jardim ressequido
plantarei as flores mais belas
tudo cresce, se transforma, renasce
o sol vem e seca a chuva
aquece a face
e se o céu escurecer
viajarei às estrelas
para trazer um novo brilho no olhar


02 março 2016

COMEMORAÇÃO DAS BODAS DE DIAMANTE DE CARLOS E HELENA

O texto a seguir foi escrito e lido por mim na comemoração das Bodas de Diamante (60 anos de matrimônio) de meus pais, Carlos e Helena.



Hoje aqui,
estas pessoas,
neste espaço,
estamos celebrando.

Lá fora o mundo pode estar desmoronando,
o caos absorvendo a paz e a harmonia,
mas aqui
neste recinto
estamos celebrando a alegria e absolvendo o mundo.

Estamos celebrando um encontro
marcado no tempo,
escrito nas estrelas,
antes de haver os dias,
antes de haver a vida,
e que se firmou
no anseio de duas almas comprometidas.

Algo tão simples de ser dito
mas que é tão imenso no sentido.
O que é explicado como sentimento
mas nem sempre totalmente apreendido.

O amor...
que esses dois seres
maravilhosamente
humanos
aqui presentes
nos ensinam.

O amor...
em todas as suas formas, presenças, exemplos, palavras,
o amor de alma, de calma, de apreço, sem preço,
porque toda maneira de amor vale a pena
e leva a vida inteira
para descobrir
que sim, vale a pena.
Pelo menos valeu, para o Carlos e a Helena.

O amor abençoado,
confirmado e transubstanciado no casamento
como templo sagrado,
construído aos poucos,
com sol ou tempestade,
na alegria e na dor,
cumprindo antigos votos,
acreditando
que tudo é possível
porque o ser amado está ali ao lado
ecoando insuspeito
em cada gesto
a promessa implícita de um
"sim, aceito".

Não é a casa pronta, é cozer os tijolos, misturar água e areia,
é erguer paredes e pintar estrelas,
é assar o bolo e confeitar a alma,
é um varrer e o outro segurar a pazinha,
é sorrir para a chuva que desmanchou o trabalho pronto
e dizer ao outro
"recomecemos".

Porque o amor,
meus amigos,
não é para os fracos.
Tem gente que pensa
que no amor soma-se
tudo o que é igual.
Quando, na verdade,
a soma de todas as diferenças é que multiplica o amor
e o torna especial.

Tão alto se vai por amor
que acreditamos ter asas.
Tão longe se vai por amor
que acreditamos que o mundo não tem fim.

E quando encontramos
a pessoa que divide conosco
as flores e os espinhos,
a pessoa que nos engrandece espiritualmente,
a pessoa que ao mesmo tempo é esquisita e maravilhosa,
que ronca a noite toda, mas se não ronca nos deixa preocupados,
a pessoa que vem à nossa mente
quando alguém soletra a palavra "amor",
aí é que sentimos que nosso coração está em casa, seguro.
Aí é que sentimos que a vida passa
mas o amor fica;
que os erros e acertos já não têm tanta importância
e aquela felicidade
que a juventude tanto ansiava,
na maturidade
tem nome, sobrenome e se senta ao nosso lado;
porque ela não é ilusão,
mas vivência, amparo, companhia.
É a magia da cumplicidade
que se renova dia a dia

Disse um antigo poeta:
"Vocês eram partículas de luz
e agora são o sol radiante".
E eu digo mais:
vocês eram dois jovens
bonitos, sonhadores, elegantes
e hoje são rainha e rei.
Vocês eram duas abelhinhas
em busca de um pouco de mel
e hoje são um só diamante 
- puro e luminoso -
há 60 anos
refletindo a vida de todos aqui presentes,
e também de alguns que não estão mais conosco.

Agradeço ao Criador, ao Universo e ao Tempo
a Generosidade de tê-los como pais
amorosos, acolhedores, zelosos.

Agradeço aos nossos convidados
a presença neste momento tão importante para o casal
bem como a paciência de cederem seu tempo e ouvidos
às palavras que floresceram em meu coração.

Termino com um poema sobre o amor,
daquele poeta que melhor descreveu as emoções humanas:
  

"De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila ao mínimo temor.

Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura.

Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,

Antes se afirma, para a eternidade.
Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou".

William Shakespeare
(tradução de Bárbara Heliodora)

Muito amor para todos.








15 fevereiro 2016

Cápsula do Tempo



Meu coração antigo
revolve areias no fundo do oceano
refaz templos esquecidos

bate às portas do Oriente
folheia os livros sagrados
conversa em vão com Sofias

sobe alterosas colinas
e se deita atrevido
sobre pedras de um castelo mouro

aporta exausto
nas praias de Ítaca
após incontáveis combates

rebela-se contra a indignidade
e proclama em nome do cálice
menos Marx e mais Blavatsky

deita-se sobre a rosa dos ventos
e busca nos quatro elementos
sua liberdade espiritual 

Meu coração antigo
me avista gentil do futuro
e ri-se de minhas frustrações

sabe onde se abriga a deusa
onde embainho a espada
onde repousa o cavaleiro

senta-se com o mensageiro
enreda-se entre serpentes
discute com os guardiões

Meu coração antigo
tem sede de mar e tempo 
viaja aos confins de si mesmo
traz uma rosa nas mãos



12 fevereiro 2016

Poesia


...enquanto houver palavras unindo-se umas às outras e construindo edifícios de alma e ar, enquanto houver almas por detrás das palavras bordando sentimentos e explodindo em cristais de luz, enquanto houver luz espargindo amor no cosmos e trazendo na chuva o abraço dos amigos, estaremos aqui neste espaço sem tempo e neste tempo sem espaço tocando-nos uns aos outros com as mãos da poesia...

21 dezembro 2015

em dezembro espera-se



em dezembro espera-se
o verão
o décimo terceiro
o natal
a véspera do novo ano
um anjo de bondade
o papai-noel
o fim do mundo
um novo mundo
um milagre
o impossível



30 novembro 2015

Âmbar



Sob o oceano dormem as lágrimas
alaranjadas, queimadas, dolorosas
das irmãs de Fáeton, filhas do Sol
resgatadas como seivas fossilizadas
transformam-se em gema formosa
talismã de cura, pedra sagrada
quente ao toque, divina e gloriosa
guarda em si toda a sabedoria
vibração, espírito ancestral
do Báltico surge o âmbar
dádiva dos deuses
alma da Terra
proteção natural

10 novembro 2015

As coisas como são


há um certo adeus sem partida
música indefinida
escorrendo
das paredes descascadas

tudo mudou
o olhar
o costume
aprendi a andar no escuro
juntei as pedras dispersas
nenhum gesto mais espanta
esvaziei a garganta
e o sentido profundo
desse poema espremido

tentamos manter o equívoco
nos tentáculos da memória
aflito o tempo nos cobra
inquietos nem nos sentamos
para bebermos nosso vinho
por medo que os copos se quebrem
ao som das nossas angústias