21 maio 2019

Reflexo


ali à beira do lago
no silêncio 
em que me pertenço
admiro a flor d’água
que reflete 
sem ondulações
a pessoa original
que me habita

os lagos 
são mais verdadeiros
que os espelhos 
e o silêncio
o mais leal amigo

12 maio 2019

O tempo nos perdeu


há um canto constante e cruciante
em sonhos e pesares que o vento traz 
são vozes de um amor passado
dobrado e engavetado
a gaveta tranquei
a chave perdi
nos nossos nós
não há trajetos
os objetos
não guardo mais

houve o amor 
a febre da procura
provoquei loucuras
desfrutei a intensidade
mas o tempo nos perdeu
sobraram promessas
meros clichês
horas roubadas
um gosto amargo
de possibilidade
e um beijo teu


01 maio 2019

poema de maio


maio acontece
discretamente
principia em dia vago
e arremessa o ano
à metade
o céu das tardes de outono
espelha-se puro no lago

o inverno ainda é suposição 
o verão é lembrança carente
maio desdobra-se, então 
suave e benevolente

27 abril 2019

Indago a vida



sei que vivo porque respiro
que outra medida há?
mas se for a vida que me vive
como ela saberá?

na meditação em solitude
reparo na vida de dentro
cismo que tudo que há fora
tem em mim o epicentro

a nuvem que passa no céu
só passa porque a vejo
e o amor que sinto em mim
corporifica-se em beijo

que vida é mais verdadeira
a que vivo ou a que sonho
se tudo o que me acontece
sou eu que teço e componho?

queria a chave inconteste
a tantas difíceis questões
mas a vida pouco se importa
com minhas inquietações

quem sabe ela me responda
no silêncio de uma estrela
tão imensa e transparente
que eu não consiga entendê-la 

caminho assim dissimulada
como quem nada indagou
enceno-me bailarina
apenas fecho os olhos... e vou

18 abril 2019

Montréal



a cidade 
lentamente 
espreguiça suas formas
entre os vapores
e a melancolia
de um violão que chora

aos poucos
desdobra-se o dia

a paisagem 
se transforma
as luzes se apagam
as últimas notas
tangem a aurora


(vídeo: Mazurka-Choro, de Heitor Villa-Lobos, interpretação de André Priedols - canal: https://www.youtube.com/channel/UCNDcb_qRMVAosJ6nmX00lPg)



15 abril 2019

vazios



(o vazio é noite)
o dia transborda
ruas sons e digitais
mas no breu
a distância cresce
entre as cidades

(o vazio é dentro)
nenhuma palavra
aplaca a sede
dos desejos
inutilmente
devoramos oceanos

(o vazio é lugar)
onde o amor se ausenta
casa cama ou abraço
nada cresce no jardim
entre pedras
e mal adubado

(o vazio é espaço)
entre o que foi
e o que ainda não é
ali habita o abismo
a paixão
e todas as possibilidades

19 março 2019

um minuto de poesia na manhã


fica comigo
poesia
um minuto
ou um pouco mais
por favor
alegra meu dia
preencha a manhã de paz

traga-me a delicadeza
do orvalho que beija a flor
um momento de ousadia
tão belo quanto fugaz

traga-me algo sublime
como o céu do alvorecer
o rei sol na alquimia
de azul, amarelo e lilás

traga-me um som angélico
que amenize o despertar
os pássaros em sinfonia
canto que a alma refaz

traga-me o momento exato
em que a folha se desdobra
em que a flor se entrega ao dia
mostre-me se for capaz

esses tão breves instantes
de alento e contemplação
são feitos de pura magia
que o minuto seguinte desfaz

mister embalar em versos
ainda que maltrapilhos
as dádivas fugidias
que o tempo brinda e perfaz

fica comigo 
poesia
um minuto 
ou um pouco mais
entre hoje e amanhã
nada mais te pediria
somente tua companhia
que inspira-me alegria
e preenche a manhã de paz



21 fevereiro 2019

Voo

foto de Rachel Baran
nos limites
olhos vagos
cabeça cheia 
coração vazio
estilhaços 
amortecido
amor tecido
nos limites

chega-se à beira do precipício
onde a liberdade é o voo
sorver-se
dissolver-se 
no encontro de asa e vento
euforia 
epifania
de um lado ausência
do outro eternidade

quanto vale?

foto da Veja (Abril)
um estrondo
um susto
lama
desespero
fuga
escuro
lama
casas
carros
pessoas
lama
árvores
vacas
pessoas
galhos
peixes
lama
o vale
a vala
a vilã
não vale
lama
o rio
o grito
o socorro
lama
absurdo
abscesso
obsceno
lama
ferro
chumbo
ouro de tolo
lama
vida
morte
socorro
lama
buscas
buscas
resgates
lama
encontros
partidas
choro
heróis
lama
mãos estendidas
mãos em prece
mãos que auxiliam
lama
por baixo da lama
a vale se evade
por cima da lama
pétalas de adeus
ah deus
a vida
quanto vale?

03 fevereiro 2019

A árvore da minha rua

foto de Helenice Priedols

a árvore da minha rua
é uma flamboyant majestosa
e pelo tamanho da copa
imagino ser bem idosa

ali os gatos se abrigam
os carros têm sombra segura
os pedestres encontram conforto
quando sobe a temperatura

mais que árvore – quase lar
é repouso, mãe que aninha
serenamente esparrama as flores
com nobreza e graça – é rainha!


19 janeiro 2019

dos destinos mal cumpridos


eu achava que podia voar
na minha infância onírica
e que as batidas do meu coração
comandavam o mundo
então o mundo quis me comandar
desfazer meus sonhos
pelos detalhes pelos entalhes
fui perdendo o passo da dança
as pessoas que te ferem
são as que você mais ama
e você destrata
as que mais amor têm por você
eu sabia da fragilidade
sabia que o amor tudo suporta
mas descobri que também pesa
fui nômade perdida e sem deserto
em passos incertos prossegui
o que minha infância diria
se me visse assim
na pedra
sentada sobre todas as histórias do mundo
falar das descobertas
não desmerece as oferendas
as finas filigranas que a vida sabe tecer
enfeitam as saudades
de destinos mal cumpridos
deixo-me ficar à brisa
devoro o morno aroma que as rosas ofertam
e invento que sobrevivi



30 dezembro 2018

fúria e flor



em mim não cabem todos os espaços que desejo
onde me enclausuram vou brotando
sinuosamente busco o mundo que eu almejo
obliquamente sigo um caminho que mal vejo
sei da liberdade embora desconheça quando
corrompo as paredes em voo e arrisco
me pensam galho seco 
mas em mim há grito
fúria
e flor

26 dezembro 2018

Toque



seja leve
mas não tão leve que seus pés não toquem o chão
seja breve
mas não tão breve que sua alma não toque outras almas
seja doce
mas não tão doce que grude no toque da mão
seja poeta
tão leve tão breve tão doce
que exale perfume de seus poemas



02 dezembro 2018

das humanas aflições


um campo assim tão vasto
a pele espalha seu assombro como chão
um vento assim tão casto
sopra segredos em cansaço e aflição

quisera buscar raízes nesse solo ralo
perderam-se em sombras divergentes
como a morte que se apresenta a cavalo
e acena falsos olhos complacentes

os braços cruzados o sonho mal passado
nada de novo no front ou na fronte
apenas esse pequeno som indelicado
assoma da montanha no horizonte

algum pássaro perdido em revoada
irrompe no inverno opaco e arrepiante
insiste como goteira na madrugada
seu guincho soturno e excruciante

a lua não me deve e também não me abriga    
esquivo-me de sua luz como do sol no deserto
regresso e recolho em mim a dor antiga
que não me esquece nem eu a ela decerto

25 novembro 2018

Ontem e hoje


foi tempo de amizades duradouras
de namoricos furtivos
foram anos dourados 

foi tempo de cartas de amor seladas
de selinhos tímidos
de sonhos açucarados

foram-se esses tempos antigos
de esperas, esperanças, serenatas
a vida hoje pede pressa
não salva nem mesmo o poeta
que nesse redemoinho
usa teclas em vez de caneta
mas não abre mão de um amigo
e tem sempre ao lado um bom copo de vinho

18 setembro 2018

Por onde a luz entra



se de um lado o mundo desmorona
se a lama cobre o senso de humanidade
não se deixe contaminar
vista-se de passarinho
cante uma canção de paz

demora, mas ele chega
esse tempo adiado
quem trará
será o que luta
ou o que se entrega?
aquele que manda 
ou aquele que faz?

talvez os sinos toquem
ou o fogo nos consuma 
talvez o silêncio dos puros
seja o grito que nos falta

o navio aponta no horizonte
o espectro do futuro se dissolve
dizem que do caos surge a luz
se eu te der uma pétala
você consegue enxergar a flor?

01 setembro 2018

partimos, mas não temos hora para chegar

arte de Armen Vahramyan

o que será um ponto de partida?
algo eterno, imóvel, cheio ou vazio?
um universo aberto para a vida
ou algum deus propondo um desafio?

espaço e tempo acordam mansamente
do um sucedem três e geram sete
densifica-se a matéria latente
a história dos sistemas se repete

até o fim dos tempos cá estamos
aturdidos na roda do samsara 
vinculados à ordem que abalamos

no sonho que o divino acalentara
tentamos descobrir aonde vamos
buscando completar nossa seara


20 agosto 2018

Um dia de sol


O dia amanhece límpido e convidativo para uma caminhada tranquila. Após tomar o café da manhã calço o tênis, pego o chapéu e saio. Mas não sem antes colocar meus óculos mágicos, um passeio pelas ruas não é interessante sem eles. 

Logo na esquina vejo um enorme paquiderme carregando dezenas de pessoas. Elas sobem e descem nos pontos demarcados. Desço a rua em direção ao parque e vejo que vem subindo a Mulher-Maravilha. Todos os dias ela passa com sua criança ao colo. Não sei que lutas ela trava, mas seu rosto estampa o cansaço, escondido no sorriso que mostra para o filho com paralisia. Logo atrás dela está um Elfo bem conhecido por aqui. Ele cuida dos jardins e dizem que conversa com as plantas, por isso elas lhe respondem crescendo lindas e perfumadas. 

Continuo meu passeio pela avenida agora, e ao passar pelo supermercado cumprimento a Iabassê, dona dos quitutes mais cobiçados da cidade. Ela sorri para mim e vejo sua alma pura e cristalina que derrama amor em tudo o que cozinha. Meu dia se ilumina mais ao chegar na entrada do parque. Lá está o mágico em ação. Ele transforma açúcar em nuvens, alegrando crianças e adultos. 

Há muitos anjos e muitas fadas no parque. Fazem algazarra, correm e brincam, andam de bicicleta, dá gosto de vê-los assim livres, em contato com a natureza. Sento-me em um banco para observar o movimento e de longe espreito Jaci e Guaraci conversando à beira do lago. Em outro banco está sentado o Hulk. Ainda bem que está calmo hoje, já o vi ficar verde ao esbravejar na padaria ou na farmácia. 

Hora de voltar para casa, no caminho passo por Mario Bros e Luigi e os cumprimento. São bons profissionais, já consertaram muitas torneiras lá de casa. Ouço um ruído estranho atrás de mim, será um unicórnio? Passou rápido demais para ter certeza. Talvez seja aquele disco voador que estacionou na pracinha semana passada. 

Finalmente retorno a casa, com o coração repleto de tantas emoções. Como há magia nesse mundo e as pessoas não percebem. Ainda bem que tenho meus óculos mágicos. Guardo-os na gaveta com muito cuidado, para usar no próximo passeio. Um dia de sol sem ele não teria a menor graça.


11 agosto 2018

o reverso do meu verso


no canto da sala
no desencanto do sonho
elaboro um plano
imagino um cenário
sei que é fantasia
sei que há algemas
em meu coração

no conto da cama
no desencontro das bocas
há algo de insano
delírio literário
vem na ventania
irrompe em poema
desabaladamente sísmico

no centro da alma
no desamparo do gesto
reparo no engano
fastio diário
louca travessia
abraço o sentimento
e beijo a ilusão

29 julho 2018

A beleza onde está?


a inconstância
a fragilidade
a graça
andam juntas
repara

tanta ilusão
tanto capricho
a nada convém
mascara

espia pela fechadura 
pelo vão da janela
descortina a aparência
busca a luz
clara

vê a essência
toca a alma
lá se guarda
a verdadeira beleza
rara


25 julho 2018

Resiliência ou o pé do hippie


De vez em quando surge uma palavra, um conceito novo no vocabulário geral e a gente vai lendo aqui, ouvindo ali, tentando entender o significado. Foi assim com a palavra “resiliência”. O conceito de resiliência foi emprestado da física, significando a propriedade de voltar ao estado anterior depois de suportar pressão, como um elástico, por exemplo. Referindo-se a pessoas, resilientes são aquelas capazes de superar problemas, resistindo a pressões e recuperando-se rapidamente. 

Pensando nesse conceito, podemos nos lembrar de inúmeros exemplos de pessoas bem sucedidas que “comeram o pão que o diabo amassou” para chegarem ao topo, outras que dão a volta por cima em qualquer situação, sacodem a poeira e transformam as adversidades em aprendizado, ou que conseguem se manter serenos e bem humorados em situações de grande estresse. 

Vai daí que me lembrei de um fato que ilustra bem o que é ser resiliente. Aconteceu em São Thomé das Letras, Minas Gerais. Estava passando um fim de semana na cidade e depois de tomar banho nas lindas cachoeiras de lá, fomos eu, minha irmã e minha filha a uma feirinha que acontece na praça da igreja.

Estávamos admirando os artesanatos, bijuterias, casinhas feitas com pedras típicas da cidade. O tempo não estava bom, nublado e com expectativa de chuva, mas eis que o aguaceiro despenca de repente, surpreendendo a todos. Foi um corre-corre danado, de turistas e feirantes recolhendo seus pertences. Eu (que já sou um tanto atrapalhada) me vi no meio da correria e achei que deveria correr também. Nesse momento dei um encontrão com um hippie que tentava salvar suas bijuterias da chuva, e pisei no pé dele, que calçava havaianas. Não só foi um pisão com a força de quem corre da chuva, mas de quem está de sandália de plataforma e pesa uns quilinhos a mais do que deveria. Frente a frente com o dito cujo, esperando o maior xingamento da parte dele, ele me olha na maior calma, sorri e diz: “Ai, que delícia!”

Nunca mais me esqueci da reação do hippie da praça de São Thomé, e acho que maior exemplo de resiliência que esse nunca vi.


18 julho 2018

Memória de Ana


haverá um tempo de voltar para casa
na asa de um anjo acolhedor
um tempo em que a dor será miragem
passagem breve por espinhosa estrada
marcada na vivência com amigos
antigos afetos e amados parentes
presentes nos momentos mais queridos

haverá um tempo de voltar para casa
na paz idealizada a hora de celebrar
fechar os olhos para este mundo
e se há algum pesar na alma
espalma-a e busca a luz e a liberdade
a saudade é um retrato que guarda a história
de vitória e de amizade pela eternidade

02 julho 2018

Colcha de Retalhos

Depois que me aposentei, resolvi aprender a costurar e fazer patchwork, até porque o salário de aposentado não é de nenhum marajá. Desativei o quarto de visitas e instalei meu "atelier", pois um artesão para ser chique precisa de um. 

Olha daqui, mede dali, o melhor lugar para instalar a máquina de costura acabou sendo ao lado da janela, para aproveitar a luz do dia e poder dar uma espiada de vez em quando, já que o quarto fica na frente da casa e a janela dá vista para a rua.

Esse quadrado com vidros e persianas é meu contato com o que acontece fora e também o que me tira a concentração do trabalho que estou fazendo. Simplesmente impossível não parar e olhar se alguém passa na calçada pisando duro (será que está bravo, teve um dia difícil), se um carro desce em velocidade indevida (que louco, não sabe que tem pedestres na rua), ou então a rolinha que está fazendo ninho no pinheiro começa a arrulhar (deixa eu ver se já terminou o ninho, ou se a gata não subiu na árvore). 

E a vizinha passa com o cachorrinho (tão bonitinho, olha só como vai alegre), outro vizinho conversa alto com alguém (parece que não se encontram há tempos), passa o sorveteiro buzinando (esquece, você já está acima do peso), olha só quantas nuvens escuras, deve chover hoje (as plantinhas agradecem), enfim, levo muito mais tempo do que o necessário para terminar meus trabalhos, mas me sinto feliz por fazer parte da rua e do que acontece, ainda que minha presença seja invisível. Se a costura não avança, pelo menos a colcha de retalhos da vida do meu bairro se descortina janela afora.

Helenice Priedols

25 junho 2018

Perfume


talvez sejamos apenas barcos
perdidos na escuridão do oceano
quem sabe sonhos ou pássaros
na solidão do tempo
espectros, vaidades
sombras no espelho

talvez histórias sem era uma vez
pretextos de falsas teorias
quem sabe somente contorno
de nuvens flanando no céu
luzes, metades
estrelas incandescentes

talvez nossa fragilidade
seja a perfeição do plano
quem sabe a beleza e o segredo
seja passar brevemente
amar e viver levemente
e deixar um rastro de perfume



10 junho 2018

Wanderlust


sofro de pernas inquietas
e de alma viajante
quando me convida
essa brisa distante
meu coração vai veloz

audacioso argonauta
vivo em balanço constante
outras línguas outros povos
numa romaria errante
como vai o livre albatroz

e se me priva o erário
e a conjunção deste instante
sonho e arquiteto viagens
pois a imaginação é gigante
e o mundo é uma casca de noz


23 maio 2018

dinâmica

arte de Laurie Kaplowitz

nada digo – observo
vejo a sombra - profética
fecho os olhos – trágica
prendo a voz – conservo

peço a luz – sede
no deserto – arábica
quero a paz – autêntica
me confundo – rede

leio a alma – entre
voo livre – mágica
planto amor -  dinâmica
sinto a vida - ventre


09 maio 2018

Os sábios do Facebook


há confusão nos mandamentos
uma loucura nas estrelas
estranhos experimentos
matam até as abelhas

a luz chega pelo avesso
o poema engole a palavra
o mal tem qualquer endereço
a morte prepara a lavra

perdemos a lucidez
tudo não passa de truque
no juízo e na acidez
dos sábios do Facebook

05 maio 2018

preciso urgentemente


preciso urgentemente 
ir ao oceano para alimentar baleias
encontrar uma floresta intocada para guardar árvores
ir à Casa Branca dizer ao sr. Presidente 
que o botão vermelho não acende e apaga
ele só apaga
preciso urgentemente 
escalar uma montanha bem alta para ver o céu de perto
estudar a condição humana 
para descobrir onde a evolução perdeu o rumo
abraçar um refugiado e dizer estou aqui, irmão
preciso urgentemente respirar um ar mais puro
e sem a poluição do ódio e do ressentimento
preciso, é preciso que o amor se espalhe
como pólen no outono, como flor na primavera
preciso urgentemente inventar um cão humano
ou um humano cão 
porque as pessoas amam os cães mas não amam os homens
preciso urgentemente 
dizer que é urgente mais que urgente é pra ontem
porque amanhã já será tarde demais

02 maio 2018

No metrô


ela senta-se do lado direito 
ele senta-se do lado esquerdo
ela no celular
ele admirando a rapidez de digitação dela
esperando uma pausa da tarefa tão urgente
ela desabafando com a amiga
cansada da solidão
ele desiste e pega o livro
mergulha nos artigos de lei
está descompromissado
melhor então estudar
ela cansa do celular
olha em volta e o percebe
tão bonito envolvido na leitura
pena não levantar os olhos
ela daria um sorriso
ou um meio sorriso
para despistar
a voz anuncia a próxima estação
ela se levanta e passa por ele
quase esbarra em seus pés
ele intenta um pequeno gesto
mas desiste
ela sai
ele fica
ela se volta 
ele a fita
três segundos
ela vai só
ele fica só
e o trem parte
the end


23 abril 2018

Essa ou aquela

arte de Sanaa K

sou essa
sou aquela
a santa a puta a devota
a que vai à luta
a que agora vota
na disputa
nem sempre justa
na saia justa
sou a que não ganha
e a que sempre apanha
a que dorme tarde
e a que acorda cedo
sou a que tem medo

sou essa
sou aquela
mãe menina mulher
qualquer uma
uma qualquer
meu melhor
a que sai à rua
e está sempre nua
mas que não é tua

sou essa
sou aquela 
não me calo
e eu não falo
do teu falo
mas desse ralo
e se grito 
por qualquer dor
esse é meu rito

sou essa 
sou aquela 
a que chefia
e a que limpa a pia
a que frita bife
e a que leva chifre
não sou perfeita
nem miss eleita
não sou rainha
não sou galinha
sou mal paga 
mal falada
mal amada
fiel ou infiel
não sou troféu
nem serva 
nem delinquente
me faço independente
a que mede o passo
busca espaço
sou gente

sou essa
sou aquela
mulher
ou como queira
mas inteira


10 abril 2018

tem jeito?


tantas vezes orei
sem ouvir eco
busquei oráculo
sem ter revelação
procurei respostas
nas garrafas
que o mar trouxe
nos olhos dos lobos
não vi a lição

nas gotas de chuva
tento ler profecias
inutilmente rastreio
o futuro nas estrelas
nem os espelhos
satisfazem meu desejo
de meu chapéu 
nunca saíram coelhos

mesmo assim
em algum lugar de mim
há uma suspeita e uma agonia
de que se a gente não se emendar
mais dia menos dia
o dono deste planeta
entra com ação de despejo


07 abril 2018

Estações do Coração


quero um abraço de primavera
desses que te fazem ser chuva
e abrir sorriso como quem 
oferta uma flor sincera

quero um passeio de verão
a pé de barco ou de trem
desses com amigos que riem largo
com sol chuva ou trovão

quero um piquenique de outono
sob árvores centenárias
com chuva de folhas coloridas
fazendo cama pra um bom sono

quero um aconchego de inverno
lareira acesa vinho na taça
cobertor quentinho dormir juntinho
e que o amor seja eterno

22 março 2018

Para uma amiga perdida no tempo


será minha amiga 
que um dia
nos encontramos
em outra vida
nas terras altas 
ou em Avalon?

ouvimos juntas 
conselhos druidas
dançamos ao som 
de uma flauta celta
ou quem sabe
fomos duas guerreiras
de terras nórdicas
mulheres selvagens
livres e belas?

será que confidenciamos
junto à fogueira
enquanto nossos filhos 
por perto brincavam?

penso talvez
que tenhamos trocado
receitas de bolo
e de poções de amor
que espertas servimos
a nossos namorados

ou seria possível
que em rituais sagrados
tenhamos bebido
do mesmo copo
em honra à deusa
ou à Grande Mãe?

ah, minha amiga
tenho certeza 
que já a conheço
de outros tempos
de outras batalhas
talvez da Escócia
talvez da Galícia
ou da Escandinávia

talvez crianças
na ilha da Irlanda
cabelinhos vermelhos
procurando fadas
ou camponesas 
de um clã vizinho
criando ovelhas
para os tartans? 

essa memória
tão bem guardada 
que não acesso
mas que me acena
assídua e intensa
de tantas coisas
que já vivemos
em terras estranhas
em tempos áridos
de encanto e magia
cultos e tradições
me deixa inquieta
cai como sombra
ou assombração

mas com certeza
nós já nos vimos
em outra vida
nas terras altas
ou em Avalon

você se lembra?

...

(Dedicado à minha amiga Márcia Poesia de Sá)