13 Novembro 2009

Brasil



homens e mulheres do meu Brasil,

fortes, feitos de barro, de pedra,

de rudes matérias primas

e delicadas artesanias,

erguem casas, tecem fibras

espalhados por esta terra

bendita, sagrada,

fértil, rica


ai que me faltam adjetivos

para esse povo

generoso,

tão alegre, desprendido,

pródigo em hospitalidade

fruto da diversidade

exemplo de humanidade


e a ti, criança brasileira,

nascida na mais linda paisagem,

a ti cabe espalhar a mensagem,

daqui onde brotam as messes

levarás ao mundo inteiro

as lições de mestiçagem

que aprendeste com teu povo


pois em teus olhos renasce a esperança,

e em ti repousa o futuro

da vida em fraternidade


arte de Tarsila do Amaral


.........

02 Novembro 2009

desvios e atalhos


não seguirei caminhos já pisados

na terra batida

por pés calejados


nem quero tampouco atalhos

a burlar contextos

a refrear encantamentos


nem os sinais impostos

dos desvios

a direcionar erros


bandeirante da vida

quero desbravar uma trilha virgem

seguir o ignoto

na aventura do desconhecido

e na ventura do novo

inventar espaços


ainda que ao comum do mundo pareça

que vou na contramão

vou sorrindo por aí

em busca do meu lugar





arte de J. William Waterhouse



28 Outubro 2009

Amor Vincit Omnia



Viajaste ao inferno tenebroso

Nas entranhas da alma padecida.

Viste o mundo em cinza e negro - trevoso,

Sem cores, viste a vida distorcida.


Teus olhos refletindo medo e dor

Contaram do abismo e da loucura

Que conheceste em meio a tanto horror

E suplicaram por alívio e cura.


Às trevas desci em busca de ti

A enfrentar teus monstros e dragões

E quase que eu mesma me perdi.


Resgatados da torpe profundeza,

Libertos das terríveis aflições

Venceram: o Amor, a Vida e a Beleza!




arte de W. Blake



17 Outubro 2009

Entre nós



nós atados

apertados

apartados


nós feridos

ataduras

ditaduras


nós libertos

afrouxados

enlaçados


nós amados

nós amantes

submissos

submersos


nós eternos


arte de Stephanie Pui-Mun Law


12 Outubro 2009

FLOR DO CAMPO



a flor do campo

não pede licença

espalha-se no espaço

abre-se em mil cores

nem pergunta se combina

sobe morro

desce morro

acompanha o riacho

passa por debaixo da cerca

e sua beleza estende-se

livre e pura

pela natureza agreste



a flor do campo

só sente

é muita pena

das pobres flores

nobres

aprisionadas

nos vasos

e canteiros

da cidade...




foto de B. Jorjorian




05 Outubro 2009

Meu Amanhã



Vou aprender a ter mais fé na vida
Tirar proveito das situações
Tomar o positivo por medida
E não me prender mais a frustrações

A lápis vou traçar o meu destino
Deixar nas mãos de Deus o meu percurso
Portar minha concha de peregrino
Pois sempre me há de vir todo recurso

Sinto-me um doente que foi curado
Um aluno que a lição aprendeu:
O amanhã não está vaticinado

Assim me invisto do poder que é meu
E escolho o caminho iluminado
Que a sorte à minha alma prometeu


arte de Rafal Olbinski

30 Setembro 2009

Inspiração


a idéia surge

em meio

a uma nebulosa

e a poesia vem

bordando nuvens

dançando folhas

esvoaçando véus

e então se deita

quieta

imóvel

nunca sedimentada

pois que não é pedra

nem areia

e sim éter

moldável

como a vida



arte de Freydoon Rassouli



26 Setembro 2009

Vem, criança


vem, criança,

que a terra é tua

teu é o céu,

tuas as estrelas,

a água em que

foste gerada


seja bem-vinda,

desculpa a desordem

(estamos tentando

arrumar o planeta

pra te receber)


vem, indigo-blue,

cristal dos meus olhos,

vem que estou pronta

pra aprender contigo

as lições de futuro


vem e me ensina

a conversar com borboletas

a ouvir música de estrelas

a caminhar com anjos


vem, criança,

que a Terra é tua

e o Céu também.


(foto de Anne Geddes)


22 Setembro 2009

Matisse




Sonhei

que o peixe voava

e a pomba

da parede despregada

a ele se juntava,

em aéreas volutas

no oceânico balé.


Das flores

extraí

a essência da forma

preenchida

de cor

na ilimitada amplitude.


Mergulhei

no vermelho,

embebi-me

de azul,

no branco

recriei-me.


Nem sombra,

nem luz:

Puro.



(Exposição Matisse Hoje/Aujourd’hui – Pinacoteca do Est. de São Paulo setembro/2009)

19 Setembro 2009



qual a parte de mim que fica?
qual a parte de mim que vai?

o mistério
de aqui chegarmos
nus
e de mãos vazias

e de partirmos
para o mistério
nus
e de mãos vazias

sem máscaras
sem fantasias

neste intervalo
- que é a vida –

nos vestimos
revestimos
travestimos

tantos disfarces
para tantas farsas

essas frágeis cascas
abandonadas
no fim da festa
restarão
qual sombras
de um mero
personagem

da inutilidade
de um mero ato repetido
surge a imensidão
das possibilidades

qual a parte de mim que fica?
qual a parte de mim que vai?


13 Setembro 2009



Não haverá verso nem rima
Para vedar a goteira
Instalada no coração.

Vou onde o oceano termina
Buscar de volta a essência,
A decência e a pulsação.

Sinto tamanho desgosto
Das coisas e das pessoas,
Desse teatro mal disposto
Que só destila fel, tão imundo,
Fecho os olhos e construo
Uma casa no fim do mundo,
Longe dessa confusão.

Quero alçar vôo e despertar
Fora do olho do furacão.

Cansei de ser ilha,
Quero ser mar.

09 Setembro 2009

novas palavras





das palavras que lancei ao vento
sem refletir, no impulso do momento,
quantas feriram, humilharam,
quantas tentei trazer de volta e engolir,
quantas foram perdoadas e me resgataram
quantas fizeram chorar em vez de fazer sorrir...



das palavras que o vento me trouxe
desprezei as cruéis e guardei as doces
quantas vieram qual setas envenenadas,
quantas rebati ou fingi não ouvir,
quantas eram verdades por mim ignoradas,
quantas me fizeram chorar em vez de fazer sorrir...



sonho com um mundo de novas palavras
que o vento leve e que o vento traga,
que sejam tantas doces, amáveis e benditas,
que cheguem mansamente e façam o amor fluir,
que abracem e confortem almas aflitas,
que iluminem os olhos e façam sorrir...





arte de Helena Nelson Reed

06 Setembro 2009

Admiráveis




Admiráveis são os que vão à frente

dão a cara a tapa,

carregam nossos fardos,

abrem vales entre as montanhas

e não temem o amanhã.



(Tiradentes, Che Guevara)



Admiráveis são os homens sem medo

que fazem de seu ideal um escudo,

tiram as pedras do caminho,

e tornam-se tão grandes em sua majestade

que levam consigo as multidões.



(Mandela, Bob Kennedy)



Esses heróis admiráveis

são temidos pelos maus,

incompreendidos pelos fracos,

e frequentemente são ceifados

pela mão da ignorância.



(Luther King, Gandhi)



Admiráveis homens

de alma magnânima,

que reverenciam a vida

e entregam-se

– corpo e alma –

à humanidade.



Seus nomes serão poemas

para sempre recitados,

na canção da Liberdade

eternamente entoados.



foto de Gregory Colbert



31 Agosto 2009

Sentença



me diz que é agora

a cena está perfeita

a cama está desfeita

a música de fundo é triste

o dedo como sempre em riste

a luz incide transversal






pode proferir a sentença


que ela seja irrecorrível


que ela seja irrevogável


torne a alma vazia


a primavera sombria


e deixe na boca o gosto do sal




saia sem olhar para trás


eu dispenso as condolências


não se dê tanta importância


não ensaiarei um gesto


não cobrarei meu arresto


mas é meu o ato final





depois que a porta fechar


no descerrar da cortina


lamentarei minha sina


por me entregar à paixão





deixarei que a solidão


me consuma em todo o mal

arte de Anca Sandu

21 Agosto 2009

O Futuro


vamos de mãos dadas

em direção ao futuro

juntos, nada nos deterá

derrubaremos qualquer muro


filhos da pátria, caminhemos

com fé, amor e arte

unidos por um mundo melhor

a palavra é nosso estandarte


a esperança nos comanda

a fraternidade nos guia

a persistência é nosso lema

nossa arma é a poesia




arte de Delacroix




13 Agosto 2009

Meu Avô


Meu avó era um gigante.

Pra conversar com ele

eu tinha que olhar pra cima

e ele me sorria lá do alto,

com aquele chapéu enorme.

Se eu quisesse uma fruta no pé

ele esticava o braço e pegava

com uma só mão!


Meu avô era um super-homem.

Fez um balanço na varanda para os netos,

em que a gente podia balançar forte

que não caía,

e me levava nos ombros

quando íamos nadar no rio.


Meu avô era um rei.

Quando ia para a cidade,

na chimbiquinha sem portas,

eu ia na carroceria

com o vento levantando meus cabelos

e na cidade ele a todos acenava.


Do alto dos meus cinco anos

eu não sabia que meu avô era velho,

eu não sabia que ele iria embora logo.

Se eu soubesse,

teria lhe dado mais beijos

e pedido mais colo.


Quem tem um avô, tem um tesouro.



foto: eu e meu avô Clóvis (1961)



06 Agosto 2009

ORIGEM




retorna o homem à origem

no seio da mata virgem

sombras, ruídos e aromas

despertam memórias ancestrais


percebe-se como espécime

no paraíso incólume

e em renascer sublime

metamorfose ou simbiose?

comunga com elementais


chora a devastação

da encosta e do grotão

convulsa febril pela terra

e sangra com os animais


revolta-lhe a bestialidade

chamada de humanidade

sofre o selvagem instinto

e lastima os seres mortais


quisera tornar-se floresta

quisera buscar qualquer fresta

na aura verde das rondas

e incorporar toda a senda

do atavismo universal





arte de Geneviève Sophie Routhier


30 Julho 2009

Quando meu verso cala


Nem todo dia é pra fazer poesia.


às vezes o verso cala
e só o que queremos


é parar
pra ouvir
o trinado de um pássaro


alimentar
a alma
com o verde das árvores


e divagar
contemplando
círculos
que uma pedra
formou no lago


É poesia que vem de fora pra dentro.



foto de Rathika Ramasamy


25 Julho 2009

FELICIDADE


Faz da tua vida uma prece

Encanta-te com o que é belo e bom

Liberta-te de teus defeitos

Investe em tuas qualidades

Compete apenas contigo

Irriga tua alma com ternura

Deixa o tempo curar as feridas

Aprende com os velhos e as crianças

Derrama bênçãos por onde passares

E entenda que ser feliz é uma opção...



foto de Rarindra Prakarsa


15 Julho 2009

DESEJOS


Que alimento é esse que Deus nos deu

que quanto mais se tem, menos sacia

que anseia a noite e incendeia o dia

que enlouquece rei, nobre e plebeu


Que doce gosto esse que inebria

- desejo de verter-se por inteiro

no mar de amar, e se tornar poesia

lançar-se à sorte e ser aventureiro


Fome voraz de instintos e sentidos

na profusão de atos desmedidos

inquieta a alma até ao desvario


Sufocante qual venenoso gás

nunca se aplaca e não nos deixa em paz

tão transbordante e, no entanto ... vazio.





arte de Jia Lu




11 Julho 2009

HOLOFOTES


eu me lembro desse menino

de sua inocência e de seu sorriso

de sua doçura e desembaraço

no palco e entre as gentes grandes


os holofotes ferem a vista


em algum momento

algo se rompeu

não sei o que foi

mas a dor do menino

foi tão profunda

que extrapolou seu bom senso


os holofotes ferem a vista


o demônio interior

deixou marcas

no corpo e na alma

os que bateram palmas

também fecharam portas

e abriram chagas incuráveis


os holofotes ferem a vista


o menino buscou proteção

na infância e na fantasia

recusou-se a crescer

e encarar os medos de frente

- mas o mundo cobrou


os holofotes ferem a vista


o menino se foi

talvez em busca de paz

na terra do sempre

onde todas as cores são belas

onde poderá dançar e cantar

como criança

onde brilhará

na eternidade

sem precisar de holofotes




06 Julho 2009



como notas numa partitura
que ao se unirem viram música
da mão divina a urdidura
assim é a humanidade
tentando compor o som da vida
na pauta do cotidiano
em que resvala a verdade:
breves, colcheias, semifusas,
em disposição tanto confusa,
notas nem sempre harmônicas,
acordes às vezes discordantes,
melodia instigante,
orquestra sinfônica
procurando sua tônica;
então vem uma criança
faz de tudo bela dança
e reaviva nossa crença:
quem espera sempre alcança,
o som da vida é a esperança.


02 Julho 2009

ARTESANATO


vem de mãos faceiras

de rendeiras

bordadeiras

ceramistas

costureiras

vem de gente habilidosa

de todos os lugares

pernambucanos

gaúchos

paraenses

potiguares

vem de todas as cores

em todas as formas

pintado

enfeitado

com fitas

com flores

riqueza que vem de cultura

de folclore

de alma

de raiz

o artesanato de nosso país



23 Junho 2009

Ave sem pouso



não temo a solidão e nem a morte

isenta de laços, fiz do céu minha morada

planando ao vento ou batendo as asas

deixo-me levar, para o sul ou para o norte


e descobri, vivendo nas alturas,

que não há vazio, não há abismos,

há espaços a serem preenchidos

com sonhos, levezas e ternuras


entrego-me ao sol, à lua, à vida

totalmente livre de amarras e grilhões

sou ave eternamente sem pouso

mas de alma plenamente agradecida


17 Junho 2009

Concepção


ciência exata

quando um mais um

é igual a três


masculino e feminino

em perfeita conjunção

inspiram e expiram

no ritmo da criação


no fluxo cósmico

a Vida explode em êxtase



arte de Josephine Wall



10 Junho 2009

Palavras que seduzem


... palavras que seduzem são aquelas

ditas à meia-luz, à meia-voz,

mas de coração inteiro,

completo e repleto

na cumplicidade do sentimento


... palavras que traduzem a linguagem

do olhar e do sentir


... palavras que lambem a pele

e fazem flutuar


... palavras do amor total


que mesmo quando não ditas

são ouvidas pelo corpo e pela alma




arte de Krista S. Raak



02 Junho 2009

Iniciação



Ancorar o barco em porto firme

Jogar a sorte em carta marcada

O inverso da arte que resta inerte

No enorme fardo que a morte encerra


Na terça parte que assim se furta

A abrir a arca que no norte aguarda

Purga a amarga oferta de uma porta

De estreito vão e cuja graça é incerta


Se o forte enfrenta o cabo das tormentas

E firma o barco no porto que ancora

Marca a sorte com a carta que joga

Na reforma audaz que sem alarde versa


Então no altar arde a ígnea verdade

Na arca aberta repousa o que era oculto

A soberba esfinge resta decifrada

E o Universo desfralda seu último véu...




28 Maio 2009

Inocência Perdida


Quem pagará a conta

dessa inocência perdida

que vaga pelas esquinas

de cada grande cidade?


Há no olhar pela droga embaçado,

no sorriso amarelado e desnutrido,

no ventre adolescente engravidado,

o retrato da indiferença e do descaso.


Seres invisíveis, párias ignorados,

passamos por eles de olhos fechados.


E se aqui escrevo

é para que não me pesem tanto os braços cruzados.





foto de Carf's


23 Maio 2009

Cicatriz



A barca que navega o tempo

carrega por onde passa

a dor, amores, tormentos,

deixando apenas a marca

de tudo que foi vivido.


No coração ferido

fica só a cicatriz,


e se o perdão tiver lugar,

o tempo trará na barca

nova chance de ser feliz.



arte de Marina Harris


17 Maio 2009

Enquadramento Social


se você não cabe no quadrado,

aperte um pouco de cada lado,

corte o excedente que não se aplica,

engole em seco mas não implica,

finge que gosta, ajeita a imagem,

faz cara de paisagem...

aja com um pouco de extravagância,

decore as regras da elegância,

e todos vão achar você bacana,

vão convidá-lo toda semana,

será uma figura invejável,

provavelmente um colunável...

mas em casa, frente ao espelho,

retira a máscara, meu velho,

e olho no olho, busque a verdade

de sua própria identidade...





foto de Dydynsky


12 Maio 2009

Moleque



Ah, moleque

trepa na árvore

corre na rua

assusta a irmãzinha

puxa o rabo do cão

ri da vizinha

atira pedra no gato

chuta pedra

fura o sapato

cola chiclete na cadeira

atormenta a rua inteira

sobe no telhado

chora por tudo

cai da rede

rabisca a parede

vive dando trombada

deixa a mãe descabelada

leva bronca na escola

imita a freira

fica de castigo

não pode jogar bola

mexe com fogo

queima o dedo

briga pelo brinquedo


chega a noite

cai na cama

dorme e sonha

...parece um anjinho...


Deus te abençoe, moleque!



05 Maio 2009


fui levada pela maré

e aportei nos teus sonhos


trouxe perfume

desejos

meus ganhos


e se me perdi na ilusão

foi porque o ritmo

que me comandava

vinha do teu coração


um dia percebi

que esse mar de desenganos

me levava mais e mais fundo


então me desprendi

tracei meus próprios planos

e acertei minha rota


da vida aprendi

o voo livre da gaivota


hoje meu contorno é o mundo



arte de Jim Warren


27 Abril 2009

Semente II


quase nem me dei conta

de quando morri

a morte chegou lenta e silenciosa

minando as forças

nublando a vista

levando à exaustão


de tudo, o que percebi

foi a escuridão

e aquele suave aroma de rosa


e então veio a grande mão

me devolvendo à terra

seca, retorcida,

amedrontada e entorpecida

adormeci e sonhei


em meu sonho havia algo

que eu desconhecia

era parte de mim

mas ao mesmo tempo

era uma nova vida


então entendi

que a morte é o impulso

para o renascer


senti a luz me inundar

e a força em mim crescer


e o ciclo se refez

deixei de ser semente

perdi o medo, fui em frente,

e me abri num novo ser




21 Abril 2009


quando estou em pedaços

você vem de mansinho

me conforta em seus braços

caquinho por caquinho

faz de mim mosaico

me salva da morte

me recria mais forte

e parte por parte

viro obra de arte



arte de Diana Maus

19 Abril 2009



Senti como um afago no coração

Ouvi palavras que ninguém dizia

Entreguei-me ao fluxo dessa inspiração

Na voz do vento veio a poesia



14 Abril 2009

Cerejeiras em Flor


vim pra te falar da vida

desse pequeno instante

entre o pó e a eternidade

da semente cósmica pulsante

que transcende o infinito

e desabrocha


vim pra te falar da verdade

somos pólen divino

soprados pelo vento cósmico

e pela terra espalhados

para aprender sobre o amor


frágeis, voláteis, fugazes

somos cerejeiras em flor



foto de Kurt Preston


03 Abril 2009



Tenho guardado em mim

o sentimento profundo
de que somente a poesia
pode salvar o mundo.

arte de E.J.Poynter


14 Março 2009


quando sua alma toca minha alma,

quando suas mãos tocam minhas mãos,

quando seu corpo toca o meu corpo,


harmonia, melodia e ritmo

modulam perfeitos movimentos,


às vezes tocamos

um noturno

em que um chopin se reconheceria.


às vezes tocamos

uma sinfonia

de deixar qualquer beethoven com inveja.


e não há ensaio – é sempre um improviso...




arte de Gustav Klimt



28 Fevereiro 2009




circunavego

os dias

à espreita

das tempestades

que se avizinham


a cada entardecer

guardo um pouco de sol

no bolso


e procuro

reter

o som das gaivotas

na alma





arte de Max Laigneau


18 Fevereiro 2009



como pássaros em gaiolas

cantam para as árvores

sem perceber as barras da prisão

assim vivemos - felizes na ilusão

...nem notamos a porta aberta


não há espada do destino

não há deuses maldosos

rindo de nossas dores

somos nós os atores

dos nossos dramas diários


há o mistério que cega

como quem olha para o sol

e há a cegueira estática

de uma vida errática

de quem pensa que vê


crianças sabem as respostas

mas exigimos as nossas

cheias de mentiras e defeitos

os livros contam estórias de grandes feitos

mas a história dos grandes homens está nas ruas



arte de Fernand Khnoff